O sacramento do Matrimônio

1 - A celebração do Matrimônio, como acontece quase sempre, talvez seja a mais difícil de se impregnar do mistério próprio do sacramento. Mesmo entre cristãos mais esclarecidos, muito ainda falta para ser feito. No contexto sociológico em que vivemos, e parece que sempre foi assim, a celebração do Matrimônio acha-se abarrotada de mil preocupações, muitas vezes externas e vazias, profundamente alheias ao verdadeiro sentido sacramental.

2 - Não se consegue fazer, com raríssimas exceções, uma celebração em que se manifeste mais claramente a índole sacramental da liturgia. E esta pobreza da celebração parte principalmente dos próprios noivos, que são, inclusive, os ministros próprios do sacramento.

3 - Como na celebração do Matrimônio a vontade dos nubentes é que sempre predomina, não por exigência litúrgica, a própria comunidade é então representada quase tão-somente por parentes e amigos. Nunca portanto a verdadeira comunidade eclesial, principalmente aquela a que pertence o casal, levando em consideração também que, quase sempre, ambos pertencem a comunidades diferentes, e nem sempre numa destas ainda se celebra o próprio Matrimônio. Vê-se, aqui, que a celebração litúrgica do Matrimônio se transforma, facilmente, em puro ato social, na  triste conclusão de que o Mistério Pascal de Cristo, fundamento de toda a liturgia, no Matrimônio pode correr o risco de reduzir-se a um desfilar de vaidades tolas, com raríssimas exceções, volto a dizer. Não se dá também por parte dos presentes uma dimensão religiosa, no sentido pleno, à celebração, porque, digamos, são eles meros espectadores e meros convidados da delicadeza nupcial.

4 - Como já se delineou acima, a preocupação e a valorização exageradas com o externo e superficial, com as aparências, acabam sufocando toda a beleza interna, profunda e sacramental do ato religioso e litúrgico. Com relação à preparação dos noivos, esta deveria brotar, naturalmente, no seio da própria família, como igreja doméstica que é. Pois é sentindo a eficácia dos valores da família e vendo-os no testemunho dos pais, que deveriam os filhos se preparar para o sacramento do Matrimônio, o que não dispensaria, diga-se, uma medida pastoral por parte da própria comunidade eclesial, como o curso de noivos, por exemplo, porém atualizado em novas reflexões e com novo sentido.

5 - Na liturgia do Matrimônio, os noivos são, ao mesmo tempo, sujeitos e ministros do sacramento. O consentimento e o juramento mútuos que então fazem, com as palavras litúrgicas do ritual, é que constituem a essência sacramental, própria do Mistério Pascal de Cristo. O padre, o diácono, ou mesmo o bispo, presente à celebração, apenas preside o ato religioso e litúrgico, representando a Igreja.

6 - A importância do sacramento do Matrimônio cresce ainda mais quando sabemos que ele se identifica na fé e tem o seu simbolismo profundamente marcado pela união mística de Cristo com a Igreja (cf. Ef 5,29-32). E sempre foi assim na doutrina católica. Sempre foi nesta figura que a Igreja celebrou o Matrimônio de seus filhos. Vejamos mais: assim como Cristo jurou fidelidade à Igreja, afirmando que dela jamais se afastaria, que as portas do Inferno jamais prevaleceriam sobre ela (cf. Mt 16,18), assim também é a natureza do Matrimônio cristão: indissolúvel pela sua própria natureza. Não se trata simplesmente da união de dois corpos, de duas vontades que se doam e se entregam, reciprocamente. Trata-se, na liturgia sacramental, também da fusão de dois corações, vivendo numa só pulsação, de duas almas vivendo num só Espírito. Mera poesia ou reflexão utópica? Não. Pura realidade do rito sacramental. Mesmo no Antigo Testamento, e mesmo antes de Deus contrair sua primeira aliança com a humanidade, a união do homem e da mulher já era indestrutível, pois a Bíblia nos diz que assim pensava o Criador ao nos dizer que os dois, isto é, o homem e a mulher, seriam uma só carne (cf. Gn 2,24; Mc 10,7), o que foi, depois, confirmado por Cristo (cf. Mt 19,4-6.8; Mc 10,2-9).

7 - Matrimônio é, pois, aliança eterna de amor. Não um amor interesseiro, egoísta e de  fundo possessivo. Não um amor simplesmente carnal e voltado para si mesmo. O verdadeiro amor sempre se volta e se compraz na felicidade do amado. Essa foi, é e sempre será a espiritualidade viva e eficaz do Matrimônio.

8 - Concluindo, diríamos sem hesitação: se os casais, sobretudo os cristãos, estivessem desejosos de viverem essa santidade do Matrimônio jamais se preocupariam com mil exterioridades. Jamais fariam de seu casamento um espetáculo de exibições calculistas e ilusórias. Fariam, sim, uma celebração de fé  cristã, simples e sóbria, como convém aos filhos de Deus, uma celebração humilde e serena, como as bodas de Cristo com a sua esposa amada, a Igreja.

Nota: Clique aqui para uma consideração objetiva sobre a vida conjugal e esponsal, no número 6 de meu trabalho sobre a oração 

BIBLIOGRAFIA PARA TODOS OS TEXTOS DOS SACRAMENTOS

- Concílio Vaticano II (LG – SC – PO - GS - CD)

- Catecismo da Igreja Católica (CIC)

- Por uma consciência Litúrgica – João de Araújo (Fumarc - esgotado)


João de Araújo

 

 

 

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