Breves considerações sobre a oração

1 – O Espírito Santo nos ensina a orar

O Espírito Santo, espírito vivificante, alma de toda vida orante, sopro de Deus, animação da vida, sempre nos enche de sua plenitude. Ele manifesta a Igreja ao mundo como povo orante e de salvação (cf. At 2,1-4), também na sua célula viva, que é a família. È pelo Espírito Santo que a Igreja ora e salmodia.

2 – O “Pai Nosso”, resumo de todo o Evangelho

O Catecismo da Igreja Católica (nº. 2761), cita e confirma o pensamento de Tertuliano, segundo o qual o Pai Nosso (Oração dominical), “é a oração fundamental e o resumo de todo o Evangelho”. Santo Agostinho, na mesma linha de Tertuliano, mostrando como os salmos são o alimento principal da oração cristã, afirma convergir todos eles nos pedidos do Pai Nosso, com a seguinte conclusão: “Percorrei todas as orações que se encontram nas Escrituras, e eu não creio que possais encontrar nelas algo que não esteja incluído na Oração do Senhor”.

3 - Assim ensinam os Santos Padres

São Cipriano, no seu Tratado sobre a Oração do Senhor, comungando da mesma fé e dos mesmos sentimentos de Santo Agostinho, como dos demais Padres da Igreja, vai também afirmar: “De alcance prodigioso, irmãos diletos, são os mistérios da oração dominical. Mistérios numerosos, profundos, enfeixados em poucas palavras, porém ricas em força espiritual, encerrando tudo o que nos importa alcançar!”. O evangelista João parece resumir toda a missão messiânica de Cristo em revelar-nos o nome de “Deus” como “Pai” (Cf. Jo 17,6.26). Não hesitaria em dizer, mesmo com minha baixíssima compreensão teológica, que Deus se sente muito mais feliz quando o chamamos de “Pai”, do que simplesmente de “Deus”, e isso em sentido eclesial, comunitário, como ensinado por Cristo (“Pai nosso”, e não simplesmente “Pai meu”; e “o pão nosso”, e não, egoísticamente, “o pão meu”). Por isso, a nossa relação filial com o Pai (Deus), nos leva, em consequência, à relação fraterna com todos os homens, nossos irmãos. Se assim não for, será simplesmente mentirosa a nossa relação com Deus.

4 – O Pai Nosso na Liturgia das Horas

Dada a importância fundamental da Oração do Senhor, por Ele ensinada aos Apóstolos, a Liturgia das Horas propõe sua citação em três momentos: nas Laudes (oração da manhã), nas Vésperas (oração da tarde), e na missa. Ensinada pelo próprio Senhor, a oração do Pai Nosso, embora nos revele apenas sete petições, em forma quantitativa, seu alcance atinge todas as necessidades humanas, como acima se referiu Santo Agostinho, ajudando-nos a compreender que SETE tem sentido simbólico, de plenitude, e não de mera realidade quantitativa ou matemática. Explicando um pouco, para aqueles que porventura ainda não sabem: na primeira parte temos três petições que se referem a Deus: (1) “santificado seja o vosso nome”, (2) “venha a nós o vosso reino” e (3) “seja feita a vossa vontade”. Já na segunda parte, temos as quatro petições que se referem a nós: (1) “O pão nosso de cada dia,,,”, (2) “... perdoai as nossas ofensas ...”, (3) ... e não nos deixeis cair em tentação”, e, finalmente, a (4) “... mas livrai-nos do mal”.

5 – As qualificações da família são hoje banalizadas, descartadas e até ironizadas

Nos números acima, propositalmente, as minhas considerações, inicialmente, giraram em torno do Pai Nosso, a única oração que nos foi ensinada pelo Senhor. Hoje, porém, com a difusão de uma modernidade individualista, preconceituosa e narcisista, vazia de valores éticos, morais e cristãos, a família está perdendo aquele sentido teológico e poético de “Igreja doméstica”, de “ninho do amor”, de “escola de virtudes” etc.. Na compreensão “moderna”, isso pertence ao passado e não deve mais voltar. Contudo, é a própria revelação do Senhor, ao ensinar-nos a chamar nosso Deus de Pai, que nos leva a mergulhar-nos no sentido pleno de família, e isso não numa fração do tempo, como algo do passado, mas para sempre, dado que a paternidade de Deus foi, é e será sempre eterna. Digamos ainda, sem hesitação que, na verdade, a família precede qualquer outra instituição humana, mesmo a Igreja. É nela principalmente que se aprende a orar e viver comunitariamente, assumindo os deveres humanos com nossos irmãos, em sentido universal, tenham eles o mesmo sentimento nosso ou não.

6 – A oração, suporte da vida e da mística conjugal e esponsal

Na mística do sacramento matrimonial, esposo e esposa devem contemplar-se mutuamente, muito além, pois, de um simples olhar amoroso, romântico e poético. Aliás, todos nós devemos ter um olhar penetrante e de reverência, por exemplo, com relação aos filhos, às crianças, aos pobres, aos doentes e sofredores. Na família então, esposo e esposa devem fazer da oração o suporte de sua vida conjugal, que não se deve reduzir a um mero “sinal-da-cruz” nas refeições, por exemplo. E os filhos precisam encontrar nos pais o referencial para a vida deles. A oração não é, porém, só “falar com Deus”, tampouco é “falar sobre Deus”, mas sobretudo “ouvir Deus” (na vida, na criação, nos acontecimentos, na voz e nas dores dos pobres, marginalizados, descartados, excluídos etc..) Aqui ainda um lembrete: nossos filhos não são “nosso filhos”, em sentido possessivo, se o fossem seriam “coisas”, “objetos”, que podemos possuir por direito, como um automóvel, por exemplo. Ao contrário, são “dons”, que Deus pode conceder-nos ou não, sem nosso merecimento, digamos.

7 – A oração, uma das perseveranças da comunidade cristã primitiva

Nas quatro perseveranças da Igreja primitiva, conforme At 2,42, está a oração e, digamos, aí como cerne vital (ensinamento dos Apóstolos-comunhão fraterna-fração do pão e a oração). E em At 1,14, Maria aparece em oração, no fervor comunitário e na aurora da Igreja, podemos dizer. Diríamos também que, talvez “respeitando” o silêncio de Maria, a citação acima é a única referência a ela no Novo Testamento, após a morte e ressurreição de seu Filho, o nosso Salvador. Maria, pois, nos dá exemplo de mulher verdadeiramente orante e, ao mesmo tempo, como Mãe profundamente silenciosa, porém ativa e mais que todos missionária e discípula do Senhor.

8 - Cristo, o grande orante do Pai

Cristo é o grande orante do Pai. Como afirma a Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas (IGLH), “o louvor de Deus ressoa no seu coração com palavras humanas de adoração, propiciação e intercessão”. Principalmente nos lábios de Cristo, a oração é sempre louvor de Deus e santificação dos homens, daí que o cerne da oração bíblica, como se vê nos salmos, é sempre a ação de graças e de louvor, seguida, geralmente, de petição, esta com confiança, limitando-se ao essencial. Às vezes a nossa oração se compõe de vasto “peditório”, repetitivo, mostrando com isso seu afastamento da origem bíblica e evangélica.

9 – A necessidade da oração

Em sua missão terrena, Cristo insistiu na necessidade de oração (cf. Lc 18,1), e São Paulo, fiel à Palavra de Deus, nos ensina a rezar sem cessar (Cf. 1Ts 5,17). Ele diz que nós geralmente não sabemos o que pedir e como pedir, mas o Espírito Santo vem em socorro de nossa fraqueza (Cf. Rm 8,26-27). Também São Cipriano, nos primórdios da Igreja, disse: “quando vamos aos homens, sabemos o que pedir; muitas vezes, diante de Deus, não sabemos”), daí a necessidade do Espírito Santo para nos fortalecer na oração e orientar-nos na confiança e na intimidade para com o Pai.

10 - A oração nos Santos Padres

Segundo Santo Agostinho, Cristo reza por nós, como nosso Sacerdote; reza em nós, como Cabeça da Igreja; e a ele rezamos como nosso Deus. Devemos ouvir a nossa voz nele, e a voz dele em nós, em verdadeira ressonância espiritual. Nos Santos Padres, mestres da Igreja nos primeiros séculos, após a era apostólica, encontramos sempre a prática desse ensinamento agostiniano. Fazendo eco a Santo Agostinho, em minhas orações diárias, na espiritualidade da Liturgia das Horas, assim eu costumo rezar: “Senhor, rezai por mim, como nosso Sacerdote; rezai em mim como Cabeça da Igreja; ouvi a minha oração como meu Senhor e meu Deus. Que a vossa voz ressoe em mim, Senhor, e que minha voz em vós ressoe”.

11- Cristo ora nos grandes momentos de sua vida e de sua missão

A Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas (IGLH 4) nos mostra como nos evangelhos Jesus se encontra sempre em profunda oração, principalmente naqueles momentos decisivos de sua missão messiânica. Assim o vemos em oração: antes de chamar os Apóstolos (Lc 6,12); na multiplicação dos pães (Mt 14,19; Mc 6,41; Lc 9,16; Jo 6,11); nas curas ( Mc 7,34); na transfiguração (Lc 9,28-29); na ressurreição de Lázaro (Jo 11,41s); ao abençoar as crianças (Mt 19,13); estando próxima a sua paixão (Jo 12,27s); na última ceia (Jo 17,1-26); em sua agonia (Mt 26,36-44); na cruz (Lc 23-34-46) etc.. Vê-se, pois, que a oração sempre foi a alma de seu ministério messiânico. Portanto, imitando-o, devemos rezar em todos os momentos da vida, que, para Deus, são sempre importantes. Alguém já nos lembrou que “quando nossa vida for de grandes problemas, não digamos a Deus o tamanho deles, mas digamos aos nossos problemas o tamanho de nosso Deus”.

12 – A Igreja continua a oração de Cristo

A Igreja continua, no tempo e no espaço, a oração de Cristo, até que descanse no repouso eterno de Deus. Portanto, quando rezamos, devemos reproduzir o que Cristo rezou. Ele, associando a si o povo de Deus, congregado em sua Igreja, faz então sua a oração de todos, daí então o valor da oração comunitária e eclesial. Sendo Cristo o nosso único Mediador e Pontífice, na verdade o Pai nos ouve na voz do Filho.

13 – Oração, intimidade filial com Deus

Voltando aqui ao que se afirmou no nº 3 deste trabalho, devemos então saber que a oração não é, como muitos entendem, uma formulação de palavras, repetitivas, chegando às vezes a mero palavreado, mas é sobretudo OUVIR Deus, em verdadeira escuta receptiva e acolhedora, diria eu “no silêncio do coração”. É um falar sim com Deus, mas com intimidade filial. Aqui, a necessária consciência de que estamos diante de um Pai amoroso e misericordioso. Daí, ser um diálogo filial com o Pai, conscientes de que Ele nos ama acima de todas as nossas imperfeições, pecados e precariedades. Da revelação bíblica nos vem o convite: “Aproximemo-nos, então, com segurança do trono da graça para conseguirmos misericórdia e alcançaremos graça como ajuda oportuna (Cf. Hb 4,16). Saibamos então: Deus está sentado em “trono da graça” e não em “tribunal de julgamento”, como às vezes pensamos.

14 – A vida como oração

Aqui podemos falar de oração viva: o trabalho cotidiano, com suas lutas e dores; a contemplação das coisas criadas, no encantamento do mistério, como nos revela a espiritualidade sálmica (Cf. Sl 104[103]; 113[112], como também Dn 3,57-86). Contemplemos, pois, o céu, o sol - no amanhecer e no entardecer - a lua, as estrelas, a imensidão do mar, os rios, as montanhas, as florestas, as gramíneas, os fenômenos atmosféricos, os pássaros (eles, voando, nos lembram a cruz, e já foi observado que todo animal, normalmente, quando desperta, olha para o céu). Devemos contemplar sobretudo as pessoas, principalmente os menos favorecidos de nossa sociedade, vendo neles a imagem do Deus vivo, do Servo padecente e esmagado, o que, digamos, não fazem os poderosos e senhores desse mundo. Aqui gostaria de referir-me ao oferecimento de nossa própria pessoa como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, num verdadeiro culto espiritual”, como nos exorta São Paulo (Cf. Rm 12,1), lembrando-nos também do diálogo de Cristo com a samaritana (Cf. Jo 4,21-23).

15 – A celebração eucarística, na Liturgia a oração por excelência

Finalmente, há uma oração que é especial em toda a vida cristã, na verdade um acontecimento salvífico, que a Igreja recebeu de seu Divino Mestre na véspera de sua Paixão: a Eucaristia. Ela é, por essência teológica, bíblica e litúrgica, pura “ação de graças”, em sentido também judaico. Na sua primeira parte, chamada de Liturgia da Palavra, ouvimos Deus, em escuta receptiva e acolhedora, como já foi dito, e na segunda parte, na Oração Eucarística propriamente dita, nós é que falamos a Deus, na voz do sacerdote, como “voz comum da Igreja”, sendo então a nossa escuta ativa. Em síntese: Na celebração da Eucaristia, Deus nos fala, e nós ouvimos, em escuta receptiva e de acolhimento, e, em seguida, nós falamos a Deus, e Ele nos ouve, em verdadeiro diálogo, dando-nos o Pão da vida eterna, como que preparando-nos desde agora para a volta definitiva aos átrios sublimes da casa do Pai.

João de Araújo

 

 

 

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