A aliança esponsal de Deus com a Igreja

A MÍSTICA ESPONSAL DO OFÍCIO DAS LEITURAS NA VIDA MONÁSTICA E DE TODA A IGREJA

 

(Texto escrito inicialmente a pedido de uma monja contemplativa e de vida de clausura, com relação ao Ofício das Leituras (da Liturgia das Horas). Deseja o Autor que esse texto possa também ser útil a todos os membro da Igreja, em leitura e meditação silenciosa, quando possível. Note-se que o texto sugere reflexão, por isso não se recomenda uma simples leitura). 

 

A aliança de Deus com o povo, uma aliança esponsal

 

1 - A aliança de Deus com a humanidade sempre se manifestou, simbolicamente, como aliança esponsal, aliança que Deus, esposo fiel, jamais quebrou, como sabemos. No Antigo Testamento, a aliança esponsal é, pois, fortemente aplicada às relações de Javé com o seu povo, desde a aliança do Sinai, e o profeta Oseias (cf. Os cap. 1-3) vai qualificar a traição idolátrica de Israel não apenas de prostituição, mas de adultério. Nas palavras de Bento XVI, em sua mensagem quaresmal, “o profeta Oseias expressa a paixão divina com imagens audazes”, e “Ezequiel, por seu lado, falando do relacionamento de Deus com o povo de Israel, não receia utilizar uma linguagem fervorosa e apaixonada” (cf. Ez 16,1-22).

 

2 - No Novo Testamento, Cristo retoma a imagem nupcial, onde, já no início de seu ministério público, nas Bodas de Caná (cf. Jo 2,1-11), em situação misteriosa, ele se auto-revela como o verdadeiro noivo, que soube guardar o “vinho bom” até aquele dia. No entendimento cristão e católico, podemos dizer que esse “vinho bom”, até então guardado, pode-se aplicar, simbolicamente, à Eucaristia, vinho que nela, como Sangue do Senhor, não foi bebido no Antigo Testamento. A imagem nupcial é ainda retomada por Cristo em Mt 9,15; 22,1-2; Jo 3,29, por exemplo.

 

3 - Também na parábola das dez virgens (cf. Mt 25,1-13), Cristo quer revelar, claramente, ser ele o noivo esperado, repetindo a mesma temática em Lc 12,35-38, quando se refere ao senhor que chega das festas nupciais, e que não era esperado. Além disso, nos Evangelhos, o reino de Deus é, às vezes, comparado com banquete, este ora no clima de família (cf. Lc 14,15-24), ora como festa de casamento (cf. Mt 22,1-14). São Paulo, principalmente em Ef 5,25-27.29.32, refere-se à Igreja como esposa de Cristo, por Cristo verdadeiramente amada, e João, no Apocalipse, confirma o entendimento paulino, quando vê “descer do céu, de junto de Deus, a Cidade santa, uma Jerusalém nova, pronta como uma esposa que se enfeitou para o seu marido” (cf. Ap 21,3), mostrando, logo depois, a Igreja como esposa do Cordeiro (cf. Ap 21,9), já então participante e revestida da mesma glória de Cristo.

 

4 - Como se vê, o conceito de esposa de Cristo, como qualificação simbólica da Igreja, implicitamente já revelado no Evangelho, em linguagem simbólica e misteriosa, vai então estar ainda mais explícito na era apostólica, como se afirmou acima, como também se acha presente na doutrina dos Santos Padres. Santo Agostinho, por exemplo, apoiando-se naturalmente em São Paulo, vai falar do “Cristo Total”, isto é, de Cristo (como Cabeça da Igreja, esposo), e da Igreja (como Corpo de Cristo, esposa).

 

5 - Diante, pois, do exposto, podemos dizer que uma sã cristologia, isto é, um sadio conhecimento teológico de Cristo, supõe uma sã eclesiologia, ou seja, uma sadia compreensão da Igreja, como corpo de Cristo. Em outras palavras: não se pode falar corretamente de Cristo excluindo a Igreja, como não se pode compreender o mistério da Igreja sem a necessária referência a Cristo. Aqui não se deve, porém, entender que Cristo depende ontologicamente da Igreja, mas que a Igreja - esta, sim - depende ontologicamente de Cristo (cf. Ef 5,24).

 

A mística esponsal no Ofício das Leituras, uma realidade mais viva para a vida monástica

 

6 - É certo que toda a Liturgia das Horas, como oração oficial da Igreja, está repleta de alusões à mística esponsal da Igreja, pois esta reza, no curso do dia e da noite, como esposa amada ao Esposo amado, que é Cristo, a exemplo da esposa dos Cantares, e reza ora clamando por sua volta gloriosa, ora dando graças por todos os dons a ela concedidos, ora gemendo sob as aflições do tempo presente, ora pelas consolações múltiplas recebidas do céu, ora sobretudo na feliz esperança de sua glorificação total.

 

7 - A mística esponsal, como vemos, aplica-se a toda a Igreja, mas, simbolicamente, a Igreja pode ser contemplada em comunidades religiosas, sobretudo naquelas de vida monástica, e até mesmo nos seus membros individualmente, como na virgem consagrada, por exemplo. A virgem, aqui, pode simbolizar então ora a Igreja, como esposa virgem de Cristo, e na sua universalidade maternal; ora a comunidade religiosa de que faz parte; ora a sua própria individualidade como membro do Corpo Místico de Cristo; ora ainda pode simbolizar a alma humana, na sua sede de água viva e na sua busca incessante de Deus.

 

8 - A expressão da mística esponsal pode estar explícita na Liturgia das Horas, como pode também ocultar-se sob os véus do mistério, de que está repleto o Ofício Divino, mas se encontra mais visível sobretudo no Ofício das Leituras, principalmente quando este é celebrado à noite ou de madrugada, como louvor noturno, como se vê adiante.

 

9 - O Ofício das Leituras traz, na hinodia, para o Tempo Comum, duas séries de hinos, uma diurna e outra noturna. Como, para a vida monástica principalmente, se recomenda o Ofício noturno, de preferência ao diurno, por causa de sua peculiaridade, o hino próprio é, muitas vezes, mais identificado com o espírito monástico, ainda mais com a vida monástica feminina.

 

10 - Para ilustrar o que acima se diz, vejamos, como exemplo, as quatro primeiras estrofes do hino que se recita no domingo da primeira semana do Saltério: 1ª - “Cantemos todos este dia, / no qual o mundo começou, / no qual o Cristo ressurgido / da morte eterna nos salvou”. 2ª - “Já o profeta aconselhava / buscar de noite o Deus da luz. / Deixando, pois, o nosso sono / vimos em busca de Jesus”. 3ª - “Que ele ouça agora a nossa prece, / tome a ovelhinha em sua mão, / leve o rebanho pela estrada / que nos conduz à salvação”. 4ª - “Eis que o esperamos vigilantes, / cantando à noite o seu louvor: / vem de repente como esposo, / como o ladrão, como o senhor”.

 

11 - Veja-se, pois, como, no exemplo acima, o hino leva em consideração o sentido pascal da oração noturna, como também faz alusões ao texto bíblico do Cântico dos Cânticos, como ainda ao texto evangélico da parábola das dez virgens. Grande parte, pois, dos hinos da série noturna está cheia dessas reminiscências bíblicas, o que fortalece grandemente a espiritualidade cristã, de modo especial a espiritualidade monástica e sua mística esponsal.

 

12 - Outro elemento fundamental do Ofício das Leituras para as comunidades monásticas, além da leitura bíblica, com seu texto mais longo, o que não acontece com as outras horas canônicas, é também a segunda leitura, tomada, como sabemos, dos Santos Padres e de escritores eclesiásticos. Aí podemos encontrar reflexões maduras, claras e corretas para a quase totalidade do viver cristão, encontrando-se, entre elas, aquelas que estão ligadas mais diretamente à vida consagrada, como as do Comum das Virgens, por exemplo. Os textos a seguir traduzem em parte pensamentos patrísticos e de escritores eclesiásticos, como síntese ou resenha, onde tomamos a liberdade de às vezes acrescentar colocações próprias, julgadas úteis, sem desmerecer os textos principais, é claro.

 

13 - Na doutrina dos Santos Padres, que a Igreja assume como sua, “as virgens são sempre a flor da Igreja, beleza e ornamento da graça espiritual, a mais ilustre porção do rebanho de Cristo”. Por causa delas, alegra-se, pois, a Igreja, que nelas manifesta sua gloriosa fecundidade, crescendo, com o numero delas, sua alegria materna. Sim, elas optaram pelo melhor, pois já começam a viver aqui o que viverão na eternidade. Consagrando-se a Cristo, seu único Esposo, renunciaram aos desejos carnais. Por isso, não se enfeitam com jóias ou com vestes esplêndidas. A ninguém procuram agradar que não seja o Senhor, de quem esperam o prêmio da virgindade. Passando pelo mundo, sem contagiar-se com ele, já adquiriram, ainda no mundo, a glória da ressurreição. Perseverando-se castas e virgens, são, pois, como os anjos de Deus".

 

14 - As almas consagradas, por seu próprio estado religioso, sabem que Deus nos amou primeiro. Sabem, porém, que Deus nos amou não porque fôssemos amáveis, mas, se somos agora amáveis é justamente porque ele nos amou. Dirá o Senhor às almas que buscam os valores eternos: “Não fostes vós que me escolhestes” (cf. Jo 15,16) para vos escolher. "Eu, sim, é que vos escolhi" para me escolherdes. Ide, pois, e dai frutos para o Reino do Deus”.

 

15 - O amor nos faz perceber que, dominar sobre nós, para Deus, é salvar-nos, enquanto, para nós, servir a Deus nada mais é que ser salvos por ele. A graça que Deus nos concede é a nossa salvação, por meio de seu Filho amado. Tal compreensão do projeto amoroso de Deus é então mais vivida pelas comunidades consagradas, pois, sobretudo para elas, a comunicação que Deus lhes faz pelo Filho é para trazer à luz do sol e à claridade mais profunda o quanto Deus as ama. E, na quietude do espírito monástico principalmente, as almas consagradas certamente ouvem, com mais nitidez espiritual, o convite do Amado: “Sede santas, porque eu, vosso Deus, sou santo” (cf. Lv 19,2), crescendo então nelas o desejo de serem lâmpadas acesas, à noite, no templo santo de seu Deus.

 

16 - Deus está em todo lugar, onipresente como é, e, na ausência de Deus, nada existiria. Não busquemos então, longe de nós, a morada de Deus, pois ele habita em nós, como a alma no corpo. Se, portanto, formos dignos de tê-lo habitando em nós, seremos vivificados por ele, pois, como diz São Paulo, “nele vivemos, nos movemos e existimos” (cf. At 17,28).

 

17 - Ninguém, é verdade, poderá investigar Deus em seu inefável e incompreensível mistério (cf. Rm 11,33-36), pois isso só o Espírito Santo pode fazer (cf. 1Cor 2,11). Não haja em nós então a presunção de conhecermos a sua ciência, indagando, nem sempre sinceramente, sobre a sua impenetrabilidade, pois, quando a sabedoria divina é investigada simplesmente, ou seja, não buscada com o coração, ela sempre se afasta para mais longe de nós. Busquemos então a ciência do Deus vivo não com nossa limitada capacidade intelectual, mas pelos caminhos de uma vida de fé pura, que brota sobretudo da simplicidade do coração.

 

18 - Na interioridade mais profunda de nosso ser, está a certeza de que “o amor expulsa o temor, fazendo até que o temor se transforme em amor”. E podemos perceber que a salvação consiste em estarmos todos unidos, na íntima adesão ao único e sumo bem, manifestando uma perfeição de ordem cristã, esta como que representada naquela pomba de que nos fala o Cântico dos Cânticos (cf. Ct 6,9). Por isso, todo aquele que vai crescendo desde a infância até alcançar o estado do homem perfeito (cf. Ef 4,13), chega àquela maturidade espiritual que somente a inteligência, iluminada pela fé, pode compreender. Então será capaz de receber a glória do Espírito Santo, através de uma vida pura, livre de toda mancha, vida, pois, que se assemelha àquela pomba perfeita, a que se refere o esposo quando afirma: “Uma só é a minha pomba, sem defeito, uma só a preferida” (cf. Ct 6,9).

 

19 - “Eu amo porque amo, amo para amar”, diz o santo, na interioridade de seu coração. E eu, acrescentando ao que o santo diz, diria ainda: “Amo, porque sou cristão e, por ser cristão, amo com amor crucificado”. O amor basta-se a si mesmo, em si e por sua causa encontra satisfação. O amor é grande coisa, mas é preciso que vá ao seu princípio, volte à sua fonte e sempre beba donde corre sem cessar. Deus, que é amor (cf. 1Jo 4,8), não quer outra coisa senão ser amado, porque bem sabe Deus que serão felizes pelo amor todos aqueles que o amarem.

 

20 - Mesmo nas minhas angústias e aflições, mesmo nos espinhos de minha caminhada, ou nas duras pedras que meus pés pisam, ou que me são atiradas, eu percebo pela graça, sim, eu percebo pela graça, que a fonte do amor é Deus mesmo, fonte do amor porque é amor, fonte de luz, porque Deus é luz. Por isso, posso encontrar repouso tranquilo e firme segurança nas chagas do Senhor! Sim, nas chagas de meu Deus, que são chagas de amor, permaneço tanto mais seguro quanto mais poderoso é o Senhor para salvar. Pode o mundo então agitar, com suas exterioridades e suas mentiras; pode o demônio armar ciladas, inventando, com sua astúcia, mil outras tentações, a ponto de parecer invencível, mas a consciência cristã, mesmo abalada, não vai perturbar-se, pois se lembrará das chagas do Senhor, sabendo que, se Cristo morreu por nós é porque nos ama infinitamente, e se infinitamente nos ama é porque, mesmo sendo pecadores, nos tornou “moedas do tesouro divino”, como disse São Lourenço de Bríndisi.

 

21 - A alma, mergulhada no mistério do amor divino, pode assim falar ao Senhor: Onde apascentas, ó bom Pastor, que carregas nos ombros todo o rebanho? (“Uma é a ovelha, a natureza humana, que puseste sobre os ombros”). Mostra-me o lugar da quietude, leva-me à erva boa e nutritiva, chama-me pelo nome e, assim, eu que sou ovelha, ouvirei a tua voz, e, ouvindo a tua voz, buscarei os prados eternos. Dá-me, Senhor, que eu tenha sempre sede de ti e, buscando-te como fonte de vida perene, também aos irmãos eu te revele como fonte do amor eterno. Como não te amar, se me amaste com infinito amor, não olhando para a minha alma, sempre manchada pelas nódoas do pecado? Impossível imaginar maior amor que o teu, pois trocaste a tua vida por minha salvação. Tu, como o “tudo” de Deus, vens assumir e socorrer o “nada” de minha humanidade. Ensina-me, pois, onde apascentas com tanto ardor (cf. Ct 1,7), pois preciso encontrar o campo saudável, tomar o alimento celeste, porque sei que, quem dele não se nutre, não poderá entrar na vida eterna (cf. Jo 6,52).

 

22 - O amor do Esposo, ou melhor, o Esposo-Amor, somente procura a resposta do amor e a fidelidade. Seja, pois, permitido à amada corresponder ao amor. Por que a esposa do Amor não deveria amar? E mais: por que não seria amado o Amor? Mesmo quando a alma, em busca de Deus, esgota-se toda no amor, não se pode comparar com a perene corrente do amor de Cristo. Na verdade, “não corre com igual abundância o caudal do amante e do Amor, da alma e do Verbo, da esposa e do Esposo, do Criador e da criatura. Há entre elas a mesma diferença entre o sedento e a fonte”.

 

23 - Pelas próprias exigências do amor, não pode a fonte saciar por completo a sede do sedento, pois este, saciado para sempre, não procuraria depois novamente a fonte. E a fonte verdadeira jamais também pode esgotar-se, pois, se fosse esgotada, onde encontraria o sedento a água viva para a sua sede? Assim, “não esgote a fonte a sede do sedento, nem esgote o sedento a fonte com a sua sede”. Sabendo disso, o Senhor, que é fonte de água viva (cf. Jo 4,10), quer que sejamos sempre sedentos de seu amor até que, na eternidade, unidos mais perfeitamente a ele, não seremos mais sedentos, porque estaremos repletos de seu amor.

 

24 - A alma, unida a Deus e em Deus transformada - e aqui é justo pensar sobretudo nas almas consagradas - respira em Deus e para Deus, em profunda aspiração cristã. Não é de admirar que a alma assim transformada possa realizar coisa tão elevada e sublime, pois é Deus mesmo que lhe concede tal dom. O Pai põe em comum com todos o mesmo amor que comunica ao Filho, não, porém, por merecer nossa natureza, mas porque, vendo-nos filhos no Filho, transborda seu coração divino de amor por nós. Nessa união nossa com o Salvador, união que é um puro querer de Deus, nossa alma se vê, pelo ação do Espírito Santo, mergulhada no mistério da Trindade, com culminância ainda mais plena na vida futura. Por causa de tão sublime verdade de fé, São João da Cruz, pensando principalmente nas almas indiferentes, medíocres e rastejantes, exclama: “Ó almas, criadas para o gozo de tão indizíveis dons, que fazeis? Ó deplorável cegueira dos filhos de Adão, que fecham os olhos à imensa luz envolvente e se tornam surdos a tão potentes palavras!”.

 

Um poema à esposa amada em busca do Senhor

 

25 - Tu, ó virgem, que és imagem da Igreja, com o esplendor da alma iluminas a graça de teu corpo. Durante a noite principalmente, medita sempre em Cristo e aguarda a sua chegada a todo momento. Pois a que hora ele virá? Chegando, tu sabes, ele entra, mas é preciso que ele encontre aberta a porta de teu coração. Abraça então aquele que procuravas e que vem a ti. Segura-o, não com laços físicos, mas com o perfume de tua santidade. Roga-lhe, em seguida, que não parta. Olha, o Verbo de Deus, repleto do amor eterno, corre, pois é próprio de quem traz no coração o amor divino ir apressadamente fazer o bem (cf. Lc 1,39). Vê também: ele precisa visitar outros lugarejos e vilas, precisa visitar mil outros corações atribulados, pois para isso é que o Pai o enviou (cf. Mt 4,43). E mais: ele não se deixa reter pelo tédio. Que tua alma vá encontrá-lo em sua palavra, mais do que sob o teto em que ele possa morar (cf. Jo 1,39). Segue então, atentamente, ó virgem, a doutrina celeste, porque o Senhor passa, repleto de luz, e ele quer encontrar-te em seu caminho.

 

26 - Talvez tu possas dizer também, como a esposa do Cântico dos Cânticos: “Procurei-o, e não o encontrei; chamei-o, e não me respondeu”! (cf. Ct 5,6). Mas se o chamaste e lhe abriste a porta de teu coração, não penses então que ele tenha desagradado de ti. Se, portanto, parece que ele se afastou de ti, então procura-o novamente, chama-o mais uma vez, pois Deus vem sempre ao nosso encontro, mas deseja ardentemente ser encontrado pela nossa procura.

 

27 - Talvez digas também que não sabes como reter o Cristo, mas quem sabe, ó virgem, como retê-lo senão a alma a quem a Igreja ensina? E se ouves a Igreja, certamente dirás com alegria: “Mal eu passei pelos guardas, encontrei aquele que meu coração ama; retive-o e não o deixarei partir” (cf. Ct 3,4). E explicarás depois aos ouvintes de teu coração: Não foi com os laços da injustiça que eu retive o meu Amado, nem com os nós da impiedade, mas com os laços da caridade, do vivo amor, com as rédeas do espírito e pelo afeto da alma.

 

28 - Também se aprenderes com a Igreja, ó virgem, flor viva do jardim de Deus, a outros poderás também, na Igreja, ensinar. E dirás àqueles que querem aprender de ti: Buscai o Senhor, buscai-o, pois ele se deixa encontrar (cf. Is 55,6). E, encontrando-o, não o deixeis partir. Tentai retê-lo sim, mesmo no sofrimento, pois, não raro, é no meio do sofrimento que ele se encontra. Sua cruz continua sendo o troféu maior de seu amor. Suas chagas são agora chagas gloriosas e de misericórdia, e ele muito delas se orgulha.

 

29 - Então, ó virgem, movida pelo eterno anseio da alma pelo seu Deus, dirás, pois, radiante e plena de paz: Encontrei o Senhor e fui por ele encontrada. Agora vou introduzi-lo na casa de minha mãe, no quarto daquela que me concebeu (cf. Ct 3,4). E concluirás, repleta da alegria pascal: A casa de minha mãe e o seu quarto - sabei todos vós, que cantais os aleluias da paz - são a intimidade mais profunda do meu ser, onde Deus habita plenamente!


FONTES:

1 - Liturgia das Horas (Ofício das Leituras)

2 - Santos Padres comentados nesse trabalho:

     Santo Ambrósio - São Cipriano - São Gregório de Nissa

3 - Escritores eclesiásticos comentados:

    São Bernardo - São João da Cruz – São Columbano, abade - Guilherme, abade do Mosteiro de Saint-Thierry

 

João de Araújo

 

 

 

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