Na esperança da paz

Cansado eu estava, Senhor, das tarefas do dia.

 

Da rotina da vida, dos assuntos dos homens, do ar fumarento, das grandezas sem glória.

 

Pensei que a TV pudesse ajudar-me em pequeno repouso.

 

Mas o mundo lá fora, mergulhado em ruídos, estava sendo mostrado aos mercadores do mundo.

 

E pude ver, Senhor, aviões arrogantes despejar sobre vidas toneladas de bombas.

 

Vi corpos mutilados, espalhados nas ruas, e gente correndo, sem saber para onde.

 

Vi prédios caindo sob o efeito das bombas, e gente chorando, vendo os seus soterrados.

 

Vi até hospitais, orfanatos e templos também sob a fúria dos intentos da guerra.

 

Vi-te, Senhor, mais uma vez, assassinado nos homens, pelos homens, massacrado outra vez, na tirania do mal.

 

Distantes dalí, bem distantes, fora do alcance das bombas e dos foguetes, homens de gravata apreciavam os resultados da guerra.

 

Dizia-se que eles estudavam um meio de pôr fim à luta.

 

Mas ninguém, absolutamente ninguém, podia acreditar em suas intenções.

 

E, com risadinhas sarcásticas, trocavam cumprimentos, fumavam charutos, desrespeitavam os mortos, debochavam de ti.

 

Fora da tela e dos objetivos do dia, vi também muitos rostos interessados na guerra.

 

Estavam felizes, com o sucesso das armas, que um dia fizeram para as majestades do mundo.

 

E eu fiquei pasmado, Senhor, ante tantos dilaceramentos.

 

Não podia entender como o pecado, que eu também carregava, era capaz de tantas atrocidades.

 

Pensava em teu Evangelho. Mas só me vinha à mente aquele mundo terrível, pelo qual tu disseste que jamais orarias. E que meus olhos, Senhor, ali estavam, tristemente, a contemplar.

 

Mas tu me mostraste um mundo diferente, que os olhos do corpo, às vezes, não veem.

 

E me fizeste recordar que, se o pecado era capaz de tanta destruição, e demonstrava tanto poder, a ponto de ter-te crucificado um dia, muito mais forte, porém, era a Graça, pois te ressuscitou para a Vida, e outra coisa não faz senão construir para a eternidade.

 

E pude ver então, Senhor, mil rostos serenos, tentando salvar outras vidas indefesas.

 

Vi mãos generosas, carregadas de fé, tratando com amor tantos corpos feridos.

 

Vi mães afagando crianças no peito, provando a existência de nobreza no mundo.

 

Vi gente chorando a crueldade dos homens, sem, porém, te pedir o seu extermínio.

 

Vi gente orando e batendo no peito, por saber que o amor ainda não triunfou plenamente.

 

E pus-me de pé, disposto a ser gente, no teu reino buscando ser um pouco melhor.

 

E, assim, fui dormir, Senhor, na esperança da paz, pois te vi trabalhar nos escombros da guerra.

 

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João de Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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João de Araújo - Na esperança da paz