Carta aberta a Papai Noel

Caro amigo Papai Noel,

Votos de saúde e paz, como também de calor mais ameno, para que você possa trabalhar dignamente, com sua bela plumagem, neste Natal-verão. Aos seus colegas do outro hemisfério, eu teria de considerar o "tenebroso inverno" e desejar a eles então o contrário, ou seja, que o sol lhes fosse mais favorável, benigno e compreensivo.

papai_noel.gifQuais as novidades, meu velho amigo? Ah! já sei: os juros mais baixos para as compras do Natal. É mesmo muito sensível o "Sistema" para o qual você hoje trabalha. Noto que você está também mais esbelto: sempre com vestes de púrpura! Chique, muito chique, Papai Noel.

Olhe: eu não estou escrevendo esta carta para pedir presentes, como a maioria das pessoas faz. Se no texto eu pedir alguma coisa - saiba - vai ser a sua conversão. Não quero presentes de quem, por pura convicção, tornou-se excludente.

A propósito, dizem que você é da descendência de São Nicolau, é verdade? Não, não é verdade, eu sei. Você nada tem, nadinha mesmo, do bispo cristão, que ajudou tanta gente, e tanta gente pobre, sabia?

Interessante: antigamente, se não estou enganado, você era diferente. Fazia lembrar aquele Menino pobre, que nasceu em Belém, num presépio, em dia de agitação na cidade. Por causa das circunstâncias, nasceu ele, pois, num cocho, mas também - diga-se - por ser amigo da santa pobreza.

Dizem que ele continuou pobre, tendo afirmado, trinta anos depois, que não tinha onde reclinar a cabeça. E na morte foi enterrado em túmulo alheio. Como se diz aqui no Brasil: "não tinha onde cair morto"! Esse Menino fez, mesmo antes de nascer, a opção pelos pobres, o que lhe tirou pontos, desclassificando-o na história, para a "festa dos ricos". Você mudou, Papai Noel, e muito, mas ele não.

Como disse mais tarde o Menino do presépio, "os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz". Assim, o poder econômico, filho da noite, deu à luz o consumismo, e na ânsia de sempre mais dominar, de acumular mais poderes e riquezas, nas mãos de poucos, é claro, percebeu, em dias de inspiração, que o Natal daquele Menino bem que seria um momento forte para conseguir seu intento, aproveitando o sentimento humano, como motivação de consumo. Com esse pensamento brilhante, criou então a "cultura do ter", a cultura dos presentes.

Daí para frente, Natal sem comes e bebes e sem presentes, em abundância, é fiasco, não Natal. O importante, pois, é "estar na moda", e não ser cafona é comprar, comprar e comprar. Mesmo sem dinheiro. Para isso, em não menos brilhante inspiração, foi criado também o "cartão de crédito", esse grande amigo, quebrador de galhos, e de tantas coisas mais. Depois, dar presentes é um sentimento universal, que até os magos do Oriente cultivaram.

Mas havia, Papai Noel, para o poder econômico um problema, como antes aqui foi dado a entender: o aniversariante da festa nada tinha de comum com os propósitos da gastação, pois era pobre e amigo dos pobres. Porém, historicamente "esperto", o adorador do lucro teve uma bela intuição: era preciso não falar do aniversariante, no seu Natal. Seria interessante não misturar as coisas. Ninguém, pois, na festa deveria preocupar-se com o aniversariante, cujo nome seria aos poucos esquecido, como aconteceu. E até muitos cristãos entraram na dança, assimilando e aceitando o pensamento sutil dos poderosos.

Por isso, hoje, no mundo da globalização, pode-se falar de Natal, de espírito natalino, mas só em termos que levem a faturamento. E quase toda a mídia passou a adorar tal medida, também esta abraçada pelos marqueteiros, especialistas em elaborar propagandas natalinas, que convencem e vencem. E no meio dessa gente, Papai Noel, você se coloca, com o seu tradicional "saco de presentes". Penso que, se Cristo ainda estivesse fisicamente entre nós, usaria o chicote pela segunda vez, não? Ah! certamente que usaria! E com mais indignação, tenho certeza!

Bem, Papai Noel, não por ser velho, mas por ter ficado "velho" na concepção do Evangelho, você acabou aceitando o jogo dos poderosos, substituindo, com sua voz suave, a ternura da criança do presépio. E isto é grave, gravíssimo, porque você se tornou agora o centro do Natal, lugar que deveria ser ocupado pelo Menino-Deus - ontem, hoje e sempre. Vê-se, pois, que você não é dos pobres, mas dos nobres.

Dos pobres, quando muito, você ainda consegue alimentar um pouquinho de sonho, mas de sonho enganador. E dos ricos? Bem, dos donos do mundo, todos sabem, você é considerado um perfeito servidor, como também um eficiente bajulador. Pelo que percebo, você não vai ficar superado tão depressa. Nem perder o emprego também. Seu jeito cabe muito bem na medida deles, como também na de muitos cristãos de meia tigela. Estou sendo duro? Não, não estou. Se falo assim, é porque o vejo comprometido só com os grandes, gente de bolsos cheios, mas... de corações vazios.

Outra coisa, Papai Noel: cansa-me vê-lo assim, de vermelho, com pesadas roupas, num país como o nosso, de clima tropical e de verão abrasador. Quando você vai inculturar-se? Seus avós lhe falaram das neves da Europa, eu sei, e você faz de conta que está na Europa. Que enganação! Olhe: nada me inspira também a sua barba branca, pois sei que você mesmo não honra um só fio de cabelo dela. Se honrasse, não se serviria de face idosa para enganar crianças, que, na inocência e na ingenuidade, ainda sonham, num mundo desprovido de verdadeiros sonhos! Que lambança, Papai Noel, e que avacalhação!

Soube, ultimamente, que você não gosta mesmo de ir às favelas. Entendo: lá não existem escadas rolantes nem luzes estonteantes. Só vidas sofridas, com contas vencidas, sem muitas "saídas". Desculpe-me. As rimas vêm, sem eu pedir. Mas há também, você sabe, Papai Noel, os chamados "natais dos pobres". E em alguns desses "natais", eu sei, você às vezes aparece, por dever de consciência. Lá, pobres mães, cansadas, com filhos que ainda acreditam, esperam, em fila interminável, um brinquedinho, que, finalmente, chega.

É leve, de plástico, como a dignidade dos pobres, e lá mesmo se quebra, para alegria de seus fabricantes. Outras vezes, o que chega é um carrinho de segunda mão, defeituoso, que nem gira mais. Ou então a bonequinha, que já não chora, não canta, não dá risada, não geme nem faz pipi. Chamam a isso de "natal dos pobres"! Que aberração! (Olhe o chicote!...) Aqui, mais uma vez triunfam os ricos, livrando-se de suas bugigangas, em favor dos pobres. Nesse dia - garanto - dormem mais tranquilos, dada a nobreza da ação que praticaram.

Você deve estar pensando, Papai Noel, que seu amigo é, afinal, um velho frustrado, o qual então você não conhecia direito. Com certeza não tive eu infância - pensa você - e não vi nos meus dias os seus passos na calada da noite. Se assim pensa, está enganado. Convivi com o verdadeiro Papai Noel de minha infância. Era amigo de minha família, humilde, trabalhador comum e não usava roupas esquisitas, como você.

Dava-me ele, todo ano, em pleno dia, uma gaita, que, sem estragar, eu tocava o ano inteiro, como menino da roça, juntando seu som ao do canto dos pássaros e também ao da harmonia cantante de pequeno riacho. Tenho dele a mais sublime recordação. Se eu fosse pedir a Deus um Papai Noel para as crianças de hoje, pediria um parecido com o da minha infância, creia. Ou então pediria você mesmo, mas convertido!

Bem, aí está, Papai Noel, a carta que há tempos eu gostaria de lhe escrever. Não sei se é a carta que você também esperava, (se é que esperava) no meio de tantas que recebe. Nela estão meus sentimentos, que pedi a Deus fossem sempre parecidos com os do Menino de Belém.

Receba meu abraço natalino e a certeza de minha sincera amizade (apesar de tudo).

João de Araújo

 

 

 

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