Longa cantiga da velha aldeia

(Um mundo globalizado sim, mas sem a globalização da justiça e da igualdade, com o consequente descarte dos pobres, idosos, doentes, índios, migrantes, refugiados, negros etc.)

1 - Nossa Terra se situa / Na galáxia branca e bela,
Seu progresso foi à Lua / E nos trouxe “torrões” dela!
Não viu mísseis, não viu bombas, / Mas aqui lançá-los pode,
Busca o “bode”, e o “bode” tomba, / Mas nem chifres tinha o bode!

E sem “ônus”, mais arromba, / Com mais ódio, tudo explode!

2 - Mundo agora da Ciência, / Tão repleta de razão,
Não quer sua inteligência / Ver “mistérios” no seu chão!
Neste tempo tudo muda, / “Como sói acontecer”,
Mas não teve a Dolly ajuda / No precoce envelhecer!

E a Ciência, tão sisuda, / Seus limites não quer ver!

3 - Já se sabe quantos genes / Tem o rico e o pobre tem,
Mas nenen com tantos “enes” / Não se sabe quem é quem!
Que se cuide o brasileiro, / Se molenga assim ficar,
Competir com estrangeiro, / Só com samba não vai dar!

E o discurso eleitoreiro / Mais um tema vai ganhar!

4 - O Cifrão ($) no mundo impera, / Com poder sempre a crescer,
Seu reinado não tolera / Quem se opõe ao seu poder!
Se o cow-boy, no ardor campestre, / Mil lições na lousa deu,
Por que grita então o mestre , / Se o discípulo aprendeu?

É que sabe o deus terrestre / Que a loucura enlouqueceu!

5 - Mil florestas derrubando, / O trator nunca faz mal,
Nossa Terra vai girando / Com mais samba e carnaval!
São os “grandes” sempre impunes / No país da vexação,
E se vêm os mil queixumes, / Entra em campo a Seleção!

Que, depois, sem azedumes, / Cai nos braços do povão!

6 - Quantos vivem “bla-bla-blando”, / Sem, porém, nada dizer,
Mas o tempo vai passando, / Sem o novo acontecer!
Celular é tudo agora, / Maritacas a grassar,
E beata vê demora / De até graças alcançar!

É porque, nobre senhora, / Deus não usa celular!

7 - Um “produto” do mercado / Já fizeram do embrião,
E o doutor, tão bem formado, / Diz não ser gente ele não!
“Gente livre”, assim crescida, / Sem crescer no puro amor,
Se engravida, mata a vida / Com ajuda do Doutor!

E a questão é resolvida / Nos porões do desamor!

8 - Temos tantas “excelências”, / Que nos chamam de “vocês”,
Delações e leniências / As assombram todo mês!
Em projetos e contratos, / “Nota dez” têm seus ardis,
Nem girafa vê seus atos, / Nunca viu e nunca quis!

Só com uma Lava-Jato, / Não tem folga o bom juiz!

9 - Sonha o pobre ser mais culto, / Com saúde, teto e pão,
Já o idoso quer seu vulto / Sem gemidos de exclusão!
Juventude quer futuro, / Com mil chances amanhã,
Sem “cestinhas”, sem “pão duro”, / Nem “canhões” do Tio Sam!

Ideal assim tão puro, / Sonham eles com afã!

10 - Tu, Brasília, me convidas /A esquecer o Mensalão,
Mas de novo te engravidas, / Dando à luz o Petrolão!
Que se enxote a vil cegonha, / E se escute o grande Rui,
Já começo a ter vergonha , / Pois honesto eu sempre fui!

Mas o povo ainda sonha / E a esperança não dilui!

11 - Nossa Terra, ao telescópio, / Nos retrata muita estima,
Mas aqui o seu colóquio / Nem com Tóquio já não rima!
Sem petróleo, ó Ocidente, / Não cozinhas teu feijão,
Sem feijão, ó Oriente, / Teu petróleo é ilusão!

Mas se os dois tem nossa gente, / Por que fome passa então?

12 - Nessa fase antropocena,1 / Chance à paz urgente é dar,
Que o Brasil se ponha em cena, / E mais honre o seu lugar!
Nosso povo é povo amigo, / Planta o trigo e faz o pão,
Pobre sim, mas não mendigo, / Dando a mão a todo irmão!

Pois o bem não sai do “embigo”, / Sai, é sim, do coração!


Notas:

 

1ª) - Alguém poderá dizer que eu “saí do sério” com esse texto. Não, não saí. Na verdade, ele já é antigo, atualizado de vez em quando, como nos últimos meses, como se vê. Antes da “Conquista da Lua”, e antes mesmo da “guerra santa”, tão necessária ao combate das “armas químicas”, eu já me sentia incomodado com o mundo, com o Brasil, (país cujos políticos, empresários e autoridades estão tirando de maneira leviana da memória de nosso povo a identificação histórica de “Terra da Santa Cruz”, substituindo-a com o título vergonhoso de “Campeão do mundo em corrupção”).

2ª) – Pode-se ver “a cara de nosso mundo” com dois fatos deste ano de 2017: o Papa Francisco visita países muçulmanos, em viagem que podemos dizer perigosa, para levar-lhes, de coração, a mensagem de fraternidade, sintetizada na feliz exortação do “amai-vos uns aos outros”, sempre no ardor da misericórdia, que lhe é próprio. Já o “deus da América”, avesso à sorte de tantos irmãos nossos, visita também países alguns igualmente muçulmanos, tendo lá já assinado, com caneta de ouro e em mesa refinada, contrato bilionário de exportação de armas, naturalmente com a mensagem diabólica do “Armai-vos contra os outros”. As indústrias bélicas, é lícito pensar, já devem ter encomendado o presente à altura de seu nobre gesto em favor delas.

3ª) – Sejamos claros: os “faraós” de nosso tempo, que terão suas tumbas diferentes das dos seus irmãos do passado, sempre agiram na “legalidade constitucional”, direito sim “de todos”, mas só na letra morta. Na prática, quase sempre, tal ou tais direitos são negados aos mais pobres e deserdados, isto é, “aos menos iguais”. Por causa disso, resolvi então ir lá no “mofo” do meu computador e colar a cantiga transcrita acima, já amarelada, acrescentando-lhe pequenas “novidades”, como a segunda gravidez de Brasília, por exemplo. (Falando em Brasília, queira Deus que ela não se engravide novamente. Diga-me, Sibila: outro “......lão”? Não, não é possível! Diga-me que isso é mero pesadelo meu. Assim,  poderei dormir um pouco mais tranquilo).

4ª) - Como se vê, o texto é irônico sim, e a ironia, em alguns momentos, pode até levar-nos com mais facilidade ao que precisamos afirmar. São Paulo, por exemplo, usou a ironia, dirigindo-se aos tessalonicenses: “muito atarefados sem nada fazer” (cf. 2Ts 3,11). Portanto, a “cantiga” tem o objetivo implícito de denúncia e de anúncio de necessária renovação de nosso mundo, tornando-o de fato NOVO, em sentido humano, antropológico e religioso, denunciando sim essa desigualdade escandalosa, fomentada pela fome e ânsia de poder, seja ele político, financeiro, econômico e até científico, que caracteriza o nosso tempo. Diga-se então: o Autor não é contra o progresso, seja ele de conquista cósmica, de avanço da Ciência, (em todas as suas áreas), e de crescimento econômico, aliás todos eles, objetivamente falando, necessários à humanidade e como que queridos por Deus. O que é preciso afirmar, e com veemência, é que todo progresso só é verdadeiramente humano quando se põe em beneficio toda a humanidade. Está isso acontecendo?

5ª) - O texto ora remete para uma realidade mundial, ora aponta para uma realidade de nosso país, ora até mesmo para realidades pessoais, onde se percebe a inclusão de muitos na cultura da indiferença e do descarte. Não se destina, portanto, o texto a ser simples brincadeira, mera sátira, ou coisa de humorista. Eu teria perdido muito tempo, se assim fosse. A nona estrofe explicita o anseio feliz do pobre, do idoso e do jovem, não se conformando eles com esse mundo injusto, desumano, mentiroso e prepotente. A última estrofe é um apelo aos poderes constituídos, com um voto de esperança e de confiança. Podemos acreditar? Penso que sim, pois Aquele que nos chama pelo nome, e que na cruz morreu por nós, desafiando a "sabedoria dos homens", pois ele é "poder de Deus" (Cf. 1Cor 1,18), disse com toda soberania: “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo” (cf. Jo 16,33).

1 - O termo é aqui usado com sentido histórico, e não tanto como tempo geológico, este usado por alguns cientistas para descrever o período mais recente na história do nosso planeta, quando as atividades humanas começaram a ter um impacto global significativo no clima da Terra, com início provável no final do século XVIII.

(Sem música própria, a longa cantiga não precisa ser cantada, mesmo tendo eu o cuidado de fazer as estrofes rigorosamente metrificadas).


João de Araújo

 

 

 

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