O sacramento do Batismo

1 - O Batismo é o primeiro dos sacramentos, a porta para os demais (cf. Mc 16,16; Jo 3,5). Como sacramento de iniciação cristã, ele nos insere na vida e no mistério do próprio Deus, por Jesus Cristo, no Espírito Santo, levando-nos assim à filiação divina (cf. LG nº 40). Deus nos criou como criaturas, mas nos concebe como filhos, na dignidade de seu próprio filho. Pelo Batismo, tornamo-nos, pois, filhos adotivos de Deus, em Jesus Cristo, filhos, pois, do mesmo Pai, e todos também, consequentemente, irmãos em Cristo, consagrados para uma vivência fraterna e chamados a celebrar, na liturgia, o grande feito salvífico de Deus, acerca de nossa redenção, na síntese admirável do Mistério Pascal de Cristo.

2 - O Batismo, fazendo nascer em nós a fé cristã, fé eclesial, mergulha-nos, pois, no mistério do Filho de Deus, fazendo-nos participantes de sua Paixão, Morte e Ressurreição (cf. Rm 6,3-4). Ele nos traz a tríplice dignidade do Filho de Deus: profética, régia e sacerdotal. Pelo Batismo somos assim inseridos no grande povo de Deus, nação santa, povo régio, raça predileta, povo sacerdotal (cf. 1Pd 2,9). Passamos a participar, vivamente, do sacerdócio do Filho de Deus, no chamado sacerdócio comum dos fiéis (cf. LG nº 10), que, digamos, não é tão comum assim. Chamemo-lo então, mais propriamente, de sacerdócio batismal, com toda a sua amplitude e com toda a sua santidade.

3 - Na liturgia do Batismo, todos os símbolos querem nos despertar para essa nova realidade de nosso ser. Assim, a vela acesa, por exemplo, vai nos dizer que passamos também a ser luz do mundo, mergulhados que fomos na luz pascal do Cristo Ressuscitado. A veste branca vai nos lembrar uma vida sempre nova, de graça, de pureza, de santidade, de fé verdadeira, digamos com firmeza. Uma vida assim misturada expressivamente na vida espiritual de Deus e no mistério de seu Ser. A água, símbolo do Espírito Santo, derramada em nossa cabeça, como força de purificação, de regeneração e de perdão de nossos pecados. O óleo, com que somos ungidos, fala-nos de uma consagração a Deus, e definitiva. Assim, pois, é a liturgia do Batismo. A  titulo, porém, de doutrina, de catequese, diga-se que somente o rito da água com as palavras do ministro (N., eu  te batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...) constituem a essência do sacramento.

4 - Quando se diz que o sacramento é um sinal eficaz, diz-se que ele de fato realizada tudo aquilo que significa. Com relação ao Batismo, tudo, pois, que acima foi explicitado, realiza-se na verdade, o mesmo acontecendo com os demais sacramentos. Daí ser preciso considerar também a responsabilidade que ele nos traz. Responsabilidade para com as exigências de Deus, para com o compromisso missionário da Igreja e para a vivência fraterna com todos os irmãos. O sacramento do Batismo, por inserir-nos no projeto de Deus, traz-nos uma grande tarefa, uma grande missão. 

5 - Por causa do que se diz acima, muitos, por não terem uma formação básica de todo o mistério da redenção, ou por causa dos ensinamentos de suas igrejas, que devemos respeitar, já disseram, e ainda dizem, que o melhor seria então, com relação ao Batismo, por exemplo, deixar que as crianças cresçam, para exercerem elas próprias a opção pelo Batismo, pois os pais e padrinhos não podem responder e assumir um compromisso ou uma tarefa que são as crianças que vão definitivamente cumprir e assumir. Assim pensam muitos. Mas, Cristo – parece – não pensava desse jeito, pois para Ele o Reino dos céus é das crianças e sempre as queria perto de si (cf. Mt 19,14; Mc 10,14; Lc 18,16). 

6 - Devemos reconhecer que há lógica no que acima se expôs. Porém, se assim pensássemos sem outras considerações, poderíamos cair no aspecto moral somente, no compromisso como tal, no seu lado apenas jurídico e externo. Vejamos bem: Ninguém hesita em mandar suas crianças à escola. Ora, a formação, que a escola oferece, traz também uma grande responsabilidade para as crianças, no futuro. A verdadeira cidadania, direito sagrado de toda pessoa, vai exigir mais participação responsável de todos aqueles que são mais esclarecidos. Aqui, então, perguntamos, invertendo as posições:  Por que então não esperar que as crianças cresçam para sabermos se elas querem ou não estudar?

7 - Na verdade, pensamos, as pessoas não podem ser deixadas ao léu, esperando pelo exercício de sua própria liberdade. Não é bem isso o aspecto vital de liberdade. Crianças há, com muita frequência,  que não gostariam de ir à escola, e nem por isso os pais devem respeitar a vontade delas, deixando então que elas resolvam por si mesmas.

8 - Pois bem. Se em muitos aspectos da vida, os pais já respondem pelos filhos, com muito mais razão devem fazê-lo no aspecto religioso, o que não significa tolher sua liberdade. A participação no plano salvífico de Deus é um direito fundamental de toda pessoa, e negar-lhe esse direito, já no inicio de sua vida, pode ser uma atitude não muito feliz cometido contra a dignidade humana.
 

9 - Vê-se, pois, que o Batismo insere a pessoa humana no mistério da redenção e da salvação, mas não viola a liberdade do batizado. Este pode crescer ou não na vida de Deus. Pode responder ou não à proposta divina de salvação. A salvação é obra gratuita de Deus, mas supõe a resposta humana aos apelos divinos. Finalmente, podemos dizer que a salvação não é automática ou mágica, simplesmente imediata à ação batismal.


João de Araújo

 

 

 

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