A catequese na ótica do mistério trinitário

1 – Na compreensão simples que temos da Trindade, pela revelação bíblica e pelo magistério da Igreja, na linha da Tradição Apostólica e dos Santos Padres, sabemos que o Pai é a fonte, a origem, o princípio vital de toda a verdade, do amor, assim como da graça e da vida. Na Liturgia, por exemplo, sabemos que o Pai é o seu princípio, a sua fonte vital, como também o seu termo; já o Filho é a sua centralidade, por isso dizemos que a Liturgia é cristocêntrica, significando que, nela, Cristo é o primeiro celebrante, nela presente e nela operando com a força de seu Mistério Pascal, isto é, de sua morte e ressurreição. E o Espírito Santo é, por sua vez, a alma da Liturgia, isto é, o seu sopro vitalizante, a sua animação mais profunda e santificante.

2 – Vemos ainda na doutrina trinitária que o Pai nunca é enviado, mas aquele que envia. Enviou Moisés, os profetas e, por fim, enviou o próprio Filho. Em Pentecostes, juntamente com o Filho, envia o Espírito Santo. Mas se o Pai sempre chama e envia, é sempre por meio do Filho e pela ação do Espírito Santo, numa ação então sempre marcada pelo mistério trinitário.

3 – O chamado de Deus Pai (na Igreja, no mundo e em todas as circunstâncias da vida), se dá em realidade permanente, em continuidade histórica, no hoje e no agora também de nossas vidas. Não se limita, pois, àquilo que conhecemos pelos dados bíblicos. Todos nós somos chamados pelo Pai, mesmo nos mais simples momentos de nosso cotidiano. Daí, a necessidade de cultivarmos a sensibilidade do ouvir, a educação que devemos ter para a escuta atenta e respeitosa. Pois ouvir Deus, e seus apelos, é, muitas vezes, na prática, escutar os acontecimentos, positivos ou não, felizes ou trágicos, e ler neles a mensagem divina para nós. Ouvir Deus é também sempre ouvir o pobre, o irmão que sofre e, ainda, ouvir o nosso próprio eu, na profundidade ou no deserto de nosso coração, na intensidade espiritual de nosso ser ou mesmo na sua superficialidade.

4 – Na ótica da fé, Deus chama então ao crescimento da fé, à sua maturação. Primeiramente isto se dá por um processo que chamamos de evangelização. É o primeiro anúncio, o querigma cristão dos primeiros séculos, que deve ser modelo sempre para a Igreja, pois é preciso, antes de tudo, que o ser humano tome conhecimento de que Deus o ama e que o criou para participar eternamente de sua glória, numa vida que ultrapassa os limites da morte. E para que isto de fato se selasse definitivamente como verdade absoluta, Deus não hesitou em enviar seu próprio Filho, aceitando a sua morte como preço de nossa redenção. O Filho, tornando-se um de nós, igual a nós em tudo, exceto no pecado, aceita, pois, toda a humanidade, em aliança de amor, tornando-nos também filhos de Deus, co-herdeiros com ele das riquezas de Deus Pai. Eis então a última aliança que Deus, historicamente, fez com a humanidade, por meio de Jesus Cristo e pela ação do Espírito Santo, aliança que, pela Eucaristia especialmente, celebramos como memorial eterno de seu amor por nós.

5 – Após o chamado à fé, pela evangelização, segue-se então o chamado ao crescimento na fé, que se dá pela catequese. Aqui temos o grande ministério dos(as) catequistas, os quais, já antes evangelizados e fortalecidos eles próprios pela catequese que tiveram, vão propiciar aos novos cristãos o mesmo crescimento na fé viva trazida por Cristo no envio do Pai. Com relação à evangelização e à catequese, o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (n. 80) vai ensinar que “Desde o início, os primeiros discípulos tiveram o ardente desejo de anunciar Jesus Cristo, com o objetivo de levar todos à fé nele. Também hoje, do amoroso conhecimento de Cristo nasce o desejo de evangelizar e catequizar, ou seja, de ensinar o Cristo, desvendar na sua pessoa todo o desígnio de Deus e pôr a humanidade em comunhão com Ele.”

6 – O chamado a ser catequista, relacionado ao projeto do Deus Pai, afirma então que todos na Igreja são catequistas, cada um a seu modo, é verdade. Uns, no ministério da comunidade, numa qualificação mais elaborada e preparada; outros, no próprio ambiente (na família, na escola, no mundo do trabalho, na política etc.). Diga-se, porém, que a nossa própria vida deve ser catequética, isto é, deve ela por si mesma ensinar e despertar nos outros o vivo interesse não só pelas coisas do Reino, mas também pelos valores da vida, hoje tão esquecidos, vulgarizados e descartados, reduzidos mesmo a banalidades. Mas, honestamente, se somos cristãos medíocres, inoperantes no amor, de fé rastejante e descomprometidos com a vida e com a verdade, não deveríamos ficar surpresos com a violência, de todo tipo, que nos assalta, pois ela é a marca de um mundo sem Deus, contra Deus e, consequentemente, contra os seus filhos.

7 – Na reflexão aqui proposta, devemos afirmar com o Concílio Vaticano II que a catequese deve ocupar sempre lugar de importância nas preocupações pastorais da Igreja, uma vez “que a instrução catequética tem por fim tornar viva, explícita e operosa a fé ilustrada pela doutrina...” (Cf. Decreto “Christus Dominus” n. 14), uma vez que, iluminando, fortificando e nutrindo a vida segundo o espírito de Cristo, a catequese leva a uma participação mais consciente no mistério cristão, como na liturgia, na vida, na família, na comunidade, na atividade apostólica e missionária, por exemplo.


João de Araújo

 

 

 

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