O pássaro cativo

passaro-cativo.JPGO pássaro cantava, Senhor, e fui vê-lo de perto.

Cantava, sim, a elegia de seu cativeiro.

Sua gaiola, ostentando o bom gosto dos homens, não parecia prisão. Inspirava segurança e demonstrava conforto.

O pássaro pulava , de poleiro em poleiro, olhando-me apreensivo.

Alpiste, água fresca e muita “esperança” lá pude ver.

Compreendi logo que eram consolações para uma liberdade perdida.

Para alimentar uma vida nos poleiros da ilusão.

E eu fiquei sem saber, Senhor, se deveria ter compaixão do pássaro ou de seu dono. Ou de ambos. Mas concluí diferente: deveria ter pena de mim.

Sim, porque, diante daquela escravidão, a minha era ainda maior. Maior, mais trágica, mais desumana e... menos honrosa. Eu sabia que, abrindo aquela minúscula portinha, a avezinha voaria em plena liberdade.

Tal, porém, não acontecia comigo. Quantas grades imensas teriam de ser abertas para que eu irrompesse em liberdade total!

Grades de prisões que eu mesmo construí, sob os aplausos do mundo, e nas quais eu mesmo me fiz prisioneiro!

Contemplei minhas mãos. Deviam elas louvar-te na eterna liturgia da vida, e eis que as via grosseiramente atadas por mil algemas.

Eu já estava ficando descrente, Senhor, quando me fizeste recordar uma coisa: um dia teu Filho já me havia falado que existe apenas uma porta para a liberdade. É estreita e escondida, porém se abre definitivamente para a VIDA.

Mas - tu sabes - até hoje eu ainda não a encontrei. E sabes melhor do que eu o motivo de não tê-la encontrado.

O meu falso orgulho sempre me impulsionou a procurá-la sozinho. E, pior ainda: sempre me fez aceitar outras portas. Mais largas, mais belas e mais atraentes.

Mas agora, Senhor, eu preciso encontrá-la para sempre. Sei, porém, que não o conseguirei sem ti.

Como o pássaro cativo, eu também já olho o mundo, apreensivo, não mais suportando a bruta carga de meu cativeiro.

Estende, pois, tuas mãos de Pai às frágeis mãos de um filho cativo para que, livre das gaiolas do mundo, possa voar na paz e nos ares que só levam a ti.


João de Araújo



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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João de Araújo - O pássaro cativo