As sete palavras de Jesus na Cruz

Os evangelistas não tiveram a mesma intuição quanto à paixão e morte de Jesus, não  narrando, pois, os fatos com os mesmos pormenores. Os  sinóticos, é verdade, se aproximam muito entre si. Já o evangelista João é mais espiritual, cuidadoso, e dá à narração da paixão não tanto sentido histórico, mas teológico, relacionando-a com a Páscoa, daí também todo o seu evangelho ser considerado como “evangelho pascal”. Assim, nota-se, por exemplo, com relação às palavras de Cristo na cruz, muita diferença nas diferentes narrações.  Como diz Raymond E. Brown, “separar essas palavras, como os evangelistas pretenderam, ao invés de aglutiná-las, pode oferecer aos cristãos um meio mais rico de compreender as exigências da cruz em suas próprias vidas”. Falando ainda dos diversos retratos de Jesus crucificado, assim se expressa: “É importante que alguns sejam capazes de ver a cabeça pendente de tristeza (Mt e Mc), enquanto outros observem os braços abertos para perdoar (Lc), e outros ainda percebam na tabuleta pregada sobre a cruz a proclamação de um rei soberano” (Jo). 

1. Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23,34)

Os sábios, Senhor, dizem que sete é símbolo de plenitude, do que é completo, podemos dizer. E sabemos que tuas sete palavras são de valor infinito. Estamos diante de tua primeira palavra na cruz. Ela  é de súplica, de pedido ao Pai de perdão para os teus algozes. Eis-te, pois, orante, íntimo do Pai, que retomas aqui, como fizeste em toda a tua vida pública e missionária, a grandeza do espírito orante. Crucificado, e no meio de ladrões, diante de uma multidão de feras humanas e de corações petrificados pela insensibilidade, teu coração ainda pulsa na serenidade e no compasso da misericórdia. Onde outro exemplo de tamanha ternura e de tamanha compaixão? Não tendo necessidade de perdão para ti, pedes perdão para aqueles que dele precisam como remédio eficaz.  

Em nossas medidas de amor, em nossos critérios humanos, onde encontrar tamanha sensibilidade? Para a nossa vergonha, a experiência da vida nos diz, muitas vezes, que nós, não raro,  nos esquecemos de rezar até mesmo pelos nossos amigos mais íntimos, e eis-te na cruz, Senhor, já agonizante, a interceder pelos teus inimigos! Que nobre lição de amor! Que manifestação sublime da mais pura compaixão!  

Um detalhe, Senhor, para os nossos corações que, mesmo insensíveis, podem notar: ao pedires perdão para os teus inimigos, quiseste ainda legitimar o perdão, como de direito dos teus algozes, na consideração que só um coração divino pode exprimir: “porque não sabem o que fazem”. Tu sabias que teus inimigos eram na verdade grandes pecadores, mas não sabiam eles avaliar a gravidade de seus pecados. Teu Apóstolo, depois, assimilando o teu pensamento, dirá: “Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu (a sabedoria divina), pois se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória (cf. 1Cor 2,8). Ao contrário de ti, Senhor, muitas vezes  não hesitamos em condenar, carregando também em nosso coração a dificuldade de pedir perdão. Mas - é verdade - centrados simplesmente  em nosso ego, sempre gostamos de ser  tratados com misericórdia.
  

Ensina-nos, pois, ó Mestre da bondade, com os sentimentos de teu coração abrasado de amor, a abraçar os nossos inimigos. Nossos rostos não foram ultrajados como o teu. Não velaram os inimigos  nossos olhos, como fizeram contigo. Nossas cabeças não foram submetidas às pontadas dos espinhos, como a tua. E, ainda mais: não tivemos de suportar a cruz, os cravos, a lança, o fel, o vinagre, as cusparadas, as traições (de Pedro e de Judas),  as sentenças iníquas de tribunais iníquos, como tu suportaste. Depois de sofreres todos esses excessos, ainda mostraste teu coração repleto de mansidão, doçura, paciência e compaixão. Que tua primeira palavra, Senhor, desperte em nosso coração o desejo sincero de perdoar não só nossos amigos, o que seria ainda fácil, mas também nossos inimigos, na medida, pois, de vosso amor e de vossa misericórdia.  

2. Em verdade, eu te digo: hoje estarás comigo no Paraíso (Lc 23,43)

Dois malfeitores, Senhor, foram crucificados contigo. Um, insultava-te; o outro, repreendia o companheiro, alertando-o de que devia temer a Deus, pois estava na mesma condenação. Reconhecia o segundo que ambos eram merecedores do castigo, enquanto tu eras inocente. E a ti pediu que te lembrasses dele quando viesses com o teu reino. Respondeste com a palavra acima, repleta de paz  e de vida eterna.

Na tua segunda palavra, Senhor, vimos-te exercitando a vida de perdão. Se na primeira palavra, como nosso Sacerdote Eterno, pedias ao Pai o perdão para os teus inimigos, aqui, como Deus que és, perdoas o malfeitor, que se arrepende. Eis, pois, mais uma manifestação de teu coração misericordioso, que não se fixa no passado, mas que se abre para o clarão do futuro, tendo diante de si um pobre condenado. Se nesse momento tu abres o reino do Céu  para o ladrão arrependido, como sinal da misericórdia infinita de nosso Deus, no momento da lança, quando aberto foi o teu lado, abres, no mesmo mistério de amor,  o reino eterno para toda a humanidade. 

Eis aqui outro mistério, Senhor,  de profunda beleza: um malfeitor, reconhecidamente criminoso, é que proclama, publicamente, a tua inocência. Nem Pedro nem os outros discípulos, nem o discípulo amado nem as santas mulheres. Mas um malfeitor. Na nossa pobreza de compreensão, dizemos “bom ladrão”, mas se fosse “bom” não seria ladrão, não é mesmo? Um ladrão que se converteu, tornando-se bom, isto sim. Ensina-nos, Senhor, a não adocicar  o Evangelho, pois o desígnio de Deus será sempre  incompreensível e misterioso para nós. Dimas, – assim o chamam -  o ladrão arrependido, tem o mérito, e somente ele, de ser canonizado por  ti, e isto ainda vivo.

Oxalá também nós, Senhor,  no crepúsculo de nossa vida, condenados ou não pelos homens, pudéssemos ouvir de tua boca as mesmas palavras que Dimas ouviu! Mas uma grande esperança brilha para nós, pois se um ladrão pode ser salvo no último instante de sua vida, e canonizado ainda vivo, Deus, é certo, olha para todos nós com o mesmo olhar compassivo, misericordioso e de perdão. Assim, pois, escreve São Máximo de Turim: “se o ladrão arrependido alcançou o paraíso, por que não alcançaria o cristão a graça de ser perdoado?”. Nesse sentido, o Apóstolo vai dizer também: “Pois se quando éramos inimigos fomos reconciliados com Deus pela morte do seu Filho, muito mais agora, uma vez reconciliados, seremos salvos por sua vida” (cf. Rm 5,10).  Também a Igreja vai cantar na Liturgia das Horas: “Quem não há de perder todo o medo, vendo o céu ser aberto ao ladrão?”. Sim. O ladrão conquista a coroa do céu, uma vez que, arrependido, na cruz com Cristo padece.

Dois aspectos da fé cristã, confessados pelo ladrão arrependido, ainda não muito comentados, aparecem no episódio da cruz: tua ressurreição e  tua realeza, Senhor. A ressurreição, na expressão “lembra-te de mim”; e tua realeza, nas palavras “quando vieres com teu reino”. E aqui não se trata de meras considerações, pois tanto a tua realeza, como a tua ressurreição eram totalmente ignoradas até mesmo pelos Apóstolos e discípulos, como se vê em todos os evangelistas, ao se referirem ao túmulo vazio, na manhã do primeiro dia da semana, isto é, no Domingo da Ressurreição. 

O mistério que ora refletimos é grande mistério, Senhor. E tu nos envias teu Espírito, que perscruta nossos corações, no mais profundo de nosso ser, iluminando-nos a mente, esclarecendo nossas  consciências  e dando-nos toda a luz necessária às opções do Reino, capacitando-nos desse modo ao pleno uso da liberdade. Assim, pela força do Espírito, sabemos que um dos condenados respondeu de maneira positiva aos apelos do Céu, convertendo-se. O outro, de acordo com o texto bíblico, não teve a mesma sensibilidade, limitando-se a insultos e com desejos de libertação puramente horizontal: “Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós” (cf. Lc 23,39ª) ou seja, não se deixou mudar, indiferente que estava aos apelos do amor.

3. Mulher, eis aí teu filho; filho, eis aí tua mãe (Jo 19,26-27)

(Seja-me permitido, Senhor, que eu me dirija à tua Mãe e ao discípulo amado e, no final, aos meus irmãos e irmãs de caminhada para a casa do Pai, palavras simples de minhas pobres considerações sobre esta terceira Palavra tua, cheia de afeto, de alento, de ternura e de bondade).

“Mulher, eis aí teu filho!” Sim, Maria, eis aí teu novo filho, pois chegou a hora de teu único e divino Filho  partir. Eis que ele agora vai ser substituído pelo discípulo amado. E é o teu próprio Filho, filho de todas as esperanças, de todas as horas, que te apresenta o teu novo filho. Uma desvantagem imensa para ti, certamente. Teu verdadeiro Filho, não só homem, mas Deus, é insubstituível. Tu, porém, aceitas o filho simplesmente humano sem queixar-se, porque ele também, verdadeiramente amado pelo teu Filho amado, seria certamente teu amparo e diminuiria, em parte, a tua solidão. A indicação do novo filho pelo Filho-Deus é também um cuidado dele para contigo, sua bendita Mãe. 

Tu sabes, Mãe de todas as mães, tu sabes que o discípulo amado não é apenas um dentre os milhões de filhos de Deus. Ele os representa. Ele os personifica e simboliza. Assim, todos nós fomos a ti indicados na cruz como filhos. Cuida, pois, de nós. Minora também nossas feridas, nossas angústias e aflições, nossos desencantos e nosso desalento. Envolve-nos no teu manto de Mãe e ensina-nos a seguir o teu Filho amado em todos os caminhos da vida. Ensina-nos que a cruz é o rumo mais certo da glória. Que a morte, sobretudo quando assumida com amor, nos leva agora à mais plena ressurreição.

“Filho, eis aí tua Mãe!” Sim, discípulo amado, eis aí a tua Mãe. O que tens a dizer? Certamente não esperavas que a ti fosse dado, na cruz, este prêmio de paz. Que fizeste para merecer tal Mãe? Nada, sabemos, porque, para Deus, o coração humano não é preciso ser amável para ser amado. Não é preciso ter nem mesmo virtudes para receber os carinhos e a ternura de Deus. Deus nos ama assim mesmo, no nosso misto de virtude e de pecado, de anseios puros e de sonhos sem glória.

Recebeste então, ó discípulo amado do coração de Deus, recebeste a Mãe do Senhor em tua casa, a partir daquele instante. Como nos representavas no Calvário, lá estávamos, misticamente, pois também somos filhos amados do Pai. E também nós então a recebemos. Mas queremos, no nosso hoje, sempre mais recebê-la, não, porém, apenas em nossa casa, mas em nosso coração, porque sabemos que em seu coração de Mãe bendita ela sempre nos traz.

Agora, pois, irmãos e irmãs, contemplemos, com encantamento, esta cena do Calvário. Não a contemplemos, porém,  como cena histórica, do passado, mas como instante sempre atual em nossas vidas. Descubramos nela mais um traço da misericórdia de nosso Deus, e entreguemo-nos, pois, à nossa querida Mãe, como filhos de seu coração. E assim, no desejo mais sublime de nossas almas, tenhamos sempre  a Mãe de Deus como mãe bendita de nossas vidas e de nossos anseios mais puros, elevados e humanos.

4. Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (Mt 27,46; Mc 15,34)

As trevas cobriam a face da terra, Senhor,  e, misturadas com a manifestação cósmica, vozes humanas vociferavam em blasfêmias e injúrias contra ti. Discípulos ao longe, como meros espectadores de um trágico acontecimento, apenas observavam  o quadro sofrido de tua Paixão. Aqui, porque também és humano, tu assumes todos as angústias dos homens e todas as suas desesperanças. Sim, tu quiseste experimentar também, unindo-te a tantos irmãos pelo mundo, a terrível experiência do abandono de Deus. Teu grito é  o grito do servo sofredor (cf. 22[21]2), que, aparentemente sem resposta, encontra no mesmo salmo o consolo de Deus: “Sim, pois ele não desprezou, não desdenhou a pobreza do pobre, nem lhe ocultou sua face, mas ouviu-o, quando a ele gritou” (Sl 22[21],25). Mais do que o salmista, é certo, tiveste o consolo do Pai, pois ele não abandona nem mesmo o mais mísero pecador.

Já antes de pronunciar na cruz esta palavra de desolação, como que sentindo o abandono de Deus, tu já tinhas sido abandonado pelos teus. Num de teus instantes de abandono e de dor, disseste então a Pedro e a João: “Minha alma está triste até a morte. Permanecei aqui e vigiai” (cf. Mc 14,34). E Marcos sublinha, Senhor, quase brutalmente essa situação de abandono, fazendo ainda o registro de dois momentos interessantes de três horas. No primeiro, isto é, na hora terça - das nove ao meio-dia -  nenhum ser humano te demonstrava simpatia (cf. Mc 15,23-25); e, no segundo, na hora sexta -  ou seja, das doze às quinze horas -  é a natureza que te respondia cobrindo de trevas toda a terra (cf. Mc 15,33).

Dadas as descrições que vimos acima, Senhor, é possível que na mente de Marcos estava a profecia de Am 8,9, segundo a qual Javé faria o sol declinar em pleno meio-dia, escurecendo a terra num dia de luz. Finalmente, numa situação assim, tão dramática,  na hora nona, ou seja, às quinze horas, tu sentes então a sensação de abandono pelo próprio Deus e no seu grito de angústia clamas com a voz de nossa humanidade: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (cf. Mc 15,34). 

Como em Lc 23,40-42 é um malfeitor que proclama publicamente a tua inocência, em Mc 15,39 é um centurião que, vendo-te morrer assim,  pela crueldade dos homens,  te reconhece como Filho de Deus. Em ambos os episódios, está a inesperada confissão humana, em favor de Deus, nem sempre imaginada ou esperada por aqueles que deveriam ser os primeiros a fazer  tais proclamações de fé, ou seja, teus discípulos e seguidores.  

É interessante, Senhor, que nesse momento tu não chamas Deus de Pai, como em toda a tua vida o fizeste, por viveres em sua familiaridade, mas o trata como Javé - Deus - e isto em aramaico, no tom da intimidade própria de tua linguagem familiar. Sabemos que chamar Deus de “Deus” simplesmente, como até os não santos fazem, pode ser explicado pela terrível realidade de sofrimento em que te encontravas. Podemos assim afirmar que, entre nossos irmãos, em todo o mundo, esta sensação de abandono foi, é e será sempre real, pois, se não fosse, tu, Senhor,  não a terias experimentado e assumido no Calvário.

Uma constatação: vendo a história, a nossa pobre história, sabemos que  as comunidades cristãs,  de Mateus  e de Marcos principalmente, viveram, como aqui falamos, esta situação de dor e esta sensação de real abandono.   Nos registros históricos está a multidão de cristãos martirizada no império romano, isto acontecendo em plena aurora da Igreja. Volta então, Senhor, o teu olhar compassivo para os nossos irmãos que tiveram, têm e terão a mesma experiência dolorosa, e que possam, iluminados pela luz de tua palavra, crescer na certeza de que Deus, de fato, jamais nos abandona. 
   

5. Tenho sede! (Jo 19,28)

Tiveste sede, Senhor, na desolação do Calvário, e apelaste para a sensibilidade humana, como, com sede de amizade sincera, apelaste para Judas, na ânsia divina de o salvar. Já havias dito, nas lições de teu reino, que um copo d’água, dado de boa vontade, não ficaria sem recompensa (cf. Mt 10,42). Mas não havia na cidade dos homens mãos generosas que te pudessem ofertá-lo. E te contentaste com uma esponja embebida em vinagre (cf. Jo 19,29-30). Na liberalidade divina, jamais, porém, tinhas hesitado em oferecer aos homens um mundo de fontes, de rios e de lagos.

Sabes, Senhor, Elias teve fome, e os corvos lhe serviram alimento (cf. 1Rs 17,4.6), mas, é verdade, não havia corvos em Jerusalém para dar-te água. Também não vieste para salvar os corvos, nós sabemos. À beira daquele poço, no encontro com a samaritana, tiveste sede (cf. Jo 4,7), e ela foi mais generosa, matando-te a sede, não de água, mas de corações sinceros, como sabemos. Também em Caná (cf. Jo 2,6), havia seis talhas de pedra, vazias, que mandaste encher de água e transformaste no melhor vinho para a festa das bodas. Mas, Senhor, em tua sede, no Calvário,  encontraste apenas um vaso cheio de vinagre e, perto dele, como vasos entorpecidos, corações petrificados pelo desamor e pela indiferença.
 

Ainda tens sede, Senhor, como tiveste no Calvário. Lá, sede natural, de água potável,  para amenizar um pouco as tuas dores e teu corpo desgastado pelo sofrimento. Aqui, hoje, agora, tens sede de corações  verdadeiros, de amor vestido de amor e não de hipocrisias e de falsidades. Tens sede de almas simples, capazes de um “sim” puro e sem restrições. Tens sede de corações livres, desapegados e solidários, capazes de morrer não tanto por ti (pois não precisas de tais sacrifícios), mas pelos irmãos mais sofredores, excluídos e marginalizados, como tu decidiste morrer e por isso estás suspenso na cruz.  Tens sede de gente mais gente, não de bajuladores  ou de  torcedores. Tens sede de gente que luta sim, por um mundo melhor, que aceita o teu jogo, sem se preocupar com o resultado final.

Sabemos então, Senhor, que, mais do que a sede do Gólgota, tens sede de corações que pulsem no compasso de teu coração. Corações, pois,  feridos de amor, orantes e humildes, para os levar ao Pai como os verdadeiros adoradores que o Pai procura (cf. Jo 4,23). Dá-nos, pois, Senhor, de tua água vivificante em nossa sede, e dá-nos sobretudo sede de tua sede em toda a nossa vida. 
  

6. Tudo está consumado! (Jo 19,30)

Tudo está consumado, Senhor, tudo está verdadeiramente consumado! Nada mais resta para fazeres. Consciente e na paz, terminaste a obra que o Pai te confiou. Nas origens, no sexto dia, isto é, naquela primeira sexta-feira da história humana,  Deus criou Adão, mas ele precisava da redenção, por isso ficou inacabado, e tu, numa outra sexta-feira, no Calvário, lhe deste acabamento, redimindo-o no madeiro da cruz. Agora, pois, Adão está salvo e se tornou mais humano e mais parecido contigo. Sim, mais parecido contigo, pois tu é que és o paradigma de Adão, e não Adão o teu paradigma.  

Agora então, revestido de luz, recriado, Adão traz as vestes de tua glória e exulta na plena alegria pascal. Quanto a nós, de barro também, adâmicos, já agora nos espelhamos somente em ti, libertados que fomos das algemas do pecado e do poder da morte, e podemos cantar, como povo redimido, juntamente com os anjos, os aleluias da ressurreição.    

Esperaste esta hora, Senhor, vieste para ela, para ela caminhaste com ardor e por ela lutaste até o fim. É hora de Deus, e não mera fração do tempo cósmico, hora que aos anjos não foi dada a conhecer,  hora que os profetas anunciaram com destemor e que os patriarcas vislumbraram à distância. Tudo está consumado, felizmente tudo! O universo rejubila de alegria, recapitulado que foi pela tua obra salvadora. Mar, terra e céus são lavados e restaurados à imagem original, saída da mente de Deus (cf. Ef 1,10).

Tu chegaste, ó Servo dos servos padecentes, ao ponto culminante de uma história de amor, deixando atrás de ti rastros que vão ficar marcados para sempre no chão bendito de nossas vidas. Aos teus passos seguirão passos que, em profunda comunhão com os teus, também vão deixar marcas de paz e de redenção. Sim, porque quando o coração humano se espelha no teu,  enche-se de misericórdia, e nele vai brilhar a mesma história de amor, a mesma vida de comunhão, a mesma certeza de vida eterna.
  

Soubeste viver, ó Sol fulgurante de nossas vidas,  uma vida totalmente dedicada ao Pai, para o Pai totalmente voltada e em favor dos irmãos plenamente vivida. Vida, oferta viva, oferta cada vez mais plena, simples e pura. Renunciando, por pouco tempo, é verdade, à  glória divina, não hesitaste em aceitar ser um homem das dores, desprezado e humilhado (cf. Is 53,3.7). Como um verme te pareceste a muitos olhares humanos (cf. Sl 22[21],7), mas como um homem de verdade e como Pessoa divina foste sempre contemplado pelos olhos de Deus.

Ajuda-nos então, Senhor, nos breves instantes de nossa vida, a fazer dela uma perene oferenda de paz e de amor. Ajuda-nos a colocá-la no altar de nosso Deus e nos passos de nossos irmãos como doação constante e serviço fraterno. Não deixes que, nos labirintos do mundo e nas incertezas dos tempos, nossa vida tome a direita ou a esquerda, mas siga em frente, na fidelidade ao Evangelho, na orientação da Santa Igreja, enfim que ela siga, como tu, sem medo, a direção do Calvário, que, sabemos, é a direção da cruz, da glória e da  ressurreição.

7. Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito (Lc 23,46)

Agora morres, realmente, Senhor, pois tudo já foi consumado. Entregas ao Pai o teu espírito, a tua vida, todo o teu ser. Todo, te entregas nas mãos daquele que é o teu Tudo. E o Pai te recebe, Senhor, como que devolvido, porque sempre foste tesouro de seu coração. Aliás, jamais deixaste de ser de Deus. O Pai gerou-te antes de todos os tempos e, eternamente, estavas na sua intimidade, como sua Sabedoria eterna, como o seu Verbo de comunicação divina (cf. Jo 1,1).

Impressiona-nos, Senhor, a liberdade com que morres. Sabias a hora em que devias morrer, e morreste quando quiseste. Não foi preciso que critérios humanos abreviassem a tua morte. Por isso, pernas não te foram quebradas (cf. Jo 19,33) nem osso algum (cf. Ex 12,46; Sl 34[33],21). Já havias dito que darias a vida para retomá-la. Que ninguém a tiraria de ti, mas que a darias livremente. Que terias o poder de entregá-la e o  poder de a retomar (cf. Jo 10,17-18). Mostraste então, Senhor, ser não apenas o Senhor da vida, mas também o Senhor da morte. Sobre a morte triunfaste, vencendo-a como o último inimigo a ser vencido (cf. 1Cor 15,26), e confirmando a vida como valor pleno dos filhos de Deus, vida que, por tua vinda, nos darias em abundância (cf. Jo 10,10).

Na serenidade, pois, de tua morte, entregaste ao Pai o teu espírito. Oxalá tenhamos nós, na morte, a mesma serenidade e a mesma paz de tua morte. Que possamos também nós entregar nas mãos benditas do Pai o nosso espírito, vivificado no teu;  a nossa vida, na plena comunhão com a tua; o nosso coração, pulsando no teu coração e encharcado de tua misericórdia.

Que no crepúsculo de nossa vida, Senhor, tenhamos então a paz de teu crepúsculo, e que possamos dizer como tu: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito”! Possam também dizer ao Pai todos os que agora  agonizam as mesmas palavras que disseste no agora mais importante de teu viver humano. Olha então, Senhor, para todas as agonias dos homens, de santos e de pecadores, de justos e de injustos, não importa. Olha para as agonias normais de vidas que,  tranquilas, viveram no clima feliz de  vidas de doação. Mas olha também, Senhor, sobretudo para aquelas agonias fabricadas pela injustiça dos homens,  vidas que se agonizam, às vezes antecipadamente,  trucidadas que são pelo jogo do mundo materialista, insensato e perverso.

Damos graças ao Pai, Senhor, pelo progresso da ciência e da  tecnologia, principalmente no campo da medicina, mas assusta-nos ver que a maioria dos  homens  não tem acesso aos recursos médicos e hospitalares, dada a criminosa desigualdade social em que vivem.  Nesta estrutura injusta e de pecado, muitos morrem no caminho, e são milhões os condenados  à humilhação pelos sistemas dominadores, estes quase sempre amparados por dispositivos legais, que os insensatos escrevem e decretam, e que os medíocres aprovam e sancionam. 

Que a tua morte, Senhor, seja a morte de todas as guerras, de todas as violências, da mentira e da desonra, das falsidades e do  pecado. Mas que ela  seja sobretudo a vida para um mundo novo, sonhado e esperado pelos pequenos, humildes e sofredores. Mundo, sim, de paz, de comunhão e de solidariedade fraterna, gerado pela tua graça e por teu Sangue redentor. Enfim, Senhor,  na tua santa agonia, faze, no entardecer  de nossas vidas, resplandecer todas as nossas agonias. Amém. Assim seja.

João de Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este site é um pequeno serviço à formação litúrgica de comunidades cristãs.
Seu autor pode esclarecer pequenas dúvidas sobre a Liturgia.
Sinta-se à vontade para entrar em Contato.
João de Araújo - As sete palavras de Jesus na Cruz