A palavra de Deus na liturgia

 

INTRODUÇÃO

 

1 - Por tudo o que conhecemos da sagrada liturgia (de sua natureza, de seus princípios, de suas dimensões e de seu mistério), podemos concluir facilmente que a palavra de Deus é o primeiro elemento da celebração. E mais: as leituras bíblicas, que sempre estão firmando o ato celebrativo, não são um dado casual, “mas o resultado do caráter dialogal da liturgia, bem como de prioridade que a iniciativa divina tem nesse diálogo constitutivo da fé e da história santa”.

 

2 - Na liturgia, como sabemos, a palavra de Deus se apresenta, como comenta Máximo Confessor, num sentido místico-teológico, em ordem de profeta-apóstolo-evangelho, comparando-o a um movimento epifânico, que vai da sombra para a imagem, e da imagem para a presença, na referência também do que diz H. U. von Balthasar.

 

3 - Diríamos ainda que, nessa graduação da palavra de Deus, podemos observar também o aspecto de som-voz-palavra, sempre em sentido progressivo: primeiro, o som; depois, a voz; em seguida, a palavra. É a palavra, pois, que plenifica a voz e a esclarece. Assim, antes de João Batista, o Precursor de Jesus, tudo parecia apenas som, mas ele já era a voz que clamava no deserto (Cf. Mc 1,3; Mt 3,3; Lc 3,4; Jo 1,23). E seu clamor era pelo ardor da Palavra, pelo irromper do Verbo de Deus.
Assim, a teologia de João vai nos dizer no evangelho: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Cf. Jo 1,14). Explicitando esse entendimento, Santo Agostinho afirma que a voz sem a palavra é inútil, incompreensível. Chegada, pois, a palavra, a voz desaparece, como, aparecendo Jesus (a Palavra), João Batista (a voz) se silencia (Cf. Jo 3,30). Entendamos ainda melhor: João Batista, mesmo sendo o maior dos profetas (Cf. Lc 7,26), era ainda somente a voz, mas Jesus, Unigênito do Pai, é a Palavra eterna.

 

4 - Notamos então que, na história da salvação, sempre houve o diálogo de Deus com o seu povo: no passado, e de modos diversos, falou Deus pelos profetas, e, depois, isto é, agora, nos últimos dias, pelo próprio Filho (Cf. Hb 1,1-2. Em aplicações pastorais e celebrativas, vemos que nas sinagogas estavam presentes as leituras bíblicas, geralmente da lei e dos profetas (Cf. Lc 4,16-22) e, nas orações, a predominância dos salmos. As leituras, como temos hoje na liturgia, encontram também o seu embasamento bíblico em Ne 8,1-12.

 

 

OS CICLOS ANUAIS DAS LEITURAS NA MISSA

 

5 - Com a reforma litúrgica, a Igreja, como mãe mestra, desejosa de que seus filhos pudessem crescer na compreensão do mistério de Deus e de sua palavra, instituiu então o ciclo anual das leituras, onde proporciona aos fiéis a escuta do mesmo evangelista por todo um ano. Assim, além do caráter celebrativo da palavra de Deus, o povo pode fixar mais o conteúdo próprio de cada evangelista, naquilo que os distingue, mesmo tratando-se, no caso, de sinóticos.

 

6 - Como uma riqueza maior para as celebrações, em ordem harmoniosa, temos então os ciclos anuais de “A”, “B” e “C” para o evangelho. Os ciclos, que têm sua aplicação, porém, só no Tempo Comum, são assim entendidos: ano A, Mateus; ano B, Marcos; e ano C, Lucas. O evangelho de João, diferente dos sinóticos, é lido sobretudo no Tempo Pascal, como também em parte do ano B, do 17º ao 21º domingos, quando a liturgia nos apresenta então o discurso de Jesus sobre o pão da vida (Cf. Jo 6).

 

7 - Para os dias de semana do Tempo Comum, os evangelhos são assim colocados: da primeira à nona semanas, Marcos; da décima à vigésima primeira, Mateus; e da vigésima segunda à trigésima quarta, Lucas. Como se vê, o evangelho é o mesmo para os dias feriais em todos os anos, na observância então das semanas referidas. Já a primeira leitura, para os dias feriais, muda na classificação do ano (par e ímpar).

 

FORÇA EXPRESSIVA DA PALAVRA DE DEUS E CONSIDERAÇÕES PASTORAIS PRÁTICAS

 

a) - Palavra que convoca

 

8 - O povo de Deus que se reune para celebrar, formando a assembléia litúrgica, é concretização e atualização das grandes assembléias do deserto (Cf. Ex 19; Nm 9), convocado assim pelo chamado divino. Dispersos, pois, pela vida e por condicionamentos humanos, agora os filhos de Deus se vêem reunidos para bendizê-lo, ouvir sua palavra e celebrar a Eucaristia. Os textos litúrgicos deixam claro este primeiro aspecto da palavra de Deus, quando, no início da celebração, na resposta à saudação do presidente, a assembléia vai dizer: “Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo!” Portanto, trata-se de iniciativa do próprio Deus, quando a assembléia se reune, e não de méritos da assembléia.

 

b) - Palavra sacramental e salvífica

 

9 - A palavra de Deus é eficaz, isto é, realiza aquilo que significa. Citemos apenas três exemplos, dentre tantos. “Deus disse: faça-se a luz, e a luz se fez” (Cf. Gn 1,3). E Jesus, no sepultamento do filho da viúva de Naim: “Jovem, eu te ordeno: levanta-te”. E o moço sentou-se e começou a falar (Cf. Lc 7,14-15). Já na cruz, a palavra de Deus se torna ainda mais frutuosa. Disse Jesus ao ladrão arrependido: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (Cf. Lc 23,43). Portanto, é preciso acolher a palavra com fé e vivê-la na sua realidade salvifica.

 

10 - O Concílio Vaticano II fala da importância da palavra de Deus na celebração não só por considerar seu sentido eclesiológico, ou seja, a Igreja é a assembléia convocada, mas também pelo seu sentido cristológico, formulado nas palavras: “Cristo está presente em sua palavra. É ele quem fala quando se lêem as Sagradas Escrituras na Igreja” (Cf. SC 7 e 23).

 

c) - Palavra hierárquica e diferenciada

 

11 - A Igreja desenvolveu aos poucos a estrutura celebrativa da palavra de Deus, numa ordem significativa e harmoniosa, sempre almejando o bem dos fiéis. Fala-se hoje de momentos ou partes distintas. Assim temos, como fruto da tradição: primeiramente o profeta, que anuncia o fato novo; em seguida, o salmista, que retoma o texto em sentido lírico e meditativo, como um prolongamento da palavra; depois, o apóstolo, que desvenda as riquezas do reino anunciado; e, finalmente, o evangelho, que já traz à luz plena as palavras de Cristo, mostrando ser ele mesmo o próprio evangelho do Pai. Como se vê, são palavras diferenciadas e em graus distintos, que culminam na palavra maior.

 

12 - Digamos também que é o cristocentrismo da Sagrada Escritura que dá às leituras, na sua heterogeneidade, a unidade no desígnio salvífico de Deus. Os santos Padres afirmam essa realidade cristocêntrica apoiando-se em palavras do próprio Jesus, após a ressurreição, seja nas últimas instruções aos discípulos (Cf. Lc 24,44), quando disse: “São estas as palavras que eu vos disse, quando ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”, seja na catequese aos discípulos de Emaús, quando enfatiza o mesmo ensinamento (Cf. Lc 24,25-27).

 

d) - Palavra ordenada

 

13 - Há duas modalidades de textos de leitura na liturgia. Uma é a leitura “seguida”, “continuada”, de um livro bíblico, onde a perícope se faz completa, com sentido claro e preciso, atendendo o sentido da festa ou do tempo litúrgico. Outra, é a leitura compilada, isto é, aquela que reune textos não seguidos, selecionando então aqueles mais significativos para o momento celebrativo. De acordo com as normas litúrgicas, o que não se pode fazer é trocar o texto bíblico ou fazê-lo soar mais “moderno”, em tentativa pastoral. A adaptação do texto, se assim se pode dizer, deve ser feita na homilia, com a aplicação concreta para a comunidade celebrante.

 

14 - Pode-se falar de leitura “selecionada”, “própria” ou “apropriada”. “Selecionada”, ou corrente, é a leitura prevista nos lecionários para o tempo ou para a festa. “Própria” é aquela prescrita para uma celebração específica, como as leituras do Santoral, por exemplo. Já por “apropriada” se entende aquela que, livremente, é escolhida para melhor adaptação ao momento celebrado. Embora permita esta liberdade, o novo missal sugere que esta última não seja tomada assim sem razão pastoral suficiente.

 

e) - Palavra proclamada e celebrada

 

15 - A palavra de Deus na liturgia é revestida do aspecto celebrativo e festivo. Portanto, não deve apenas ser lida, mas proclamada, de modo que resulte em verdadeira celebração. É diferente, pois, da simples leitura da Sagrada Escritura, seja pessoal ou mesmo em círculos bíblicos. Na missa não é então mera introdução ao rito eucarístico, como se dava a entender antes do Concílio Vaticano II, onde até missais traziam a denominação de “antemissa” para o momento da Liturgia da Palavra. A estrutura da missa é hoje, felizmente, de palavra-rito, com as duas mesas, da Palavra e do Pão, ambas de verdadeiro alimento espiritual e ordenadas entre si.

 

16 - A liturgia cristã não celebra idéias ou lembranças. Celebra, sim, fatos e acontecimentos, passados e atuais. Também, para o cristão, celebrar é alegrar-se, admirar-se, festejar, dar graças, louvar etc.. Por isso, as leituras da palavra de Deus não são feitas sem canto, sem silêncio e sem espírito orante.

 

 

A FUNÇÃO DO LEITOR

 

17 - Pelo exposto, compreende-se então que a função do leitor é verdadeiro ministério, hoje, felizmente, instituído, mas ministério que precisa ser trabalhado, orientado e enriquecido com formação bíblica e litúrgica. Pela sua própria função, o leitor deve ser visto como um arauto, pois por ele chega, inicialmente, a palavra de Deus à assembléia, como que preparando o caminho do evangelho, notando-se que a primeira leitura faz textualmente essa preparação com sua ligação temática.
Com convicção, deve, pois, o leitor anunciar a palavra, e é desejável que seja ele o primeiro a acolher a sua própria força salvífica. De acordo com as normas litúrgicas, não cabe ao leitor explicar o texto proclamado, mas tão-somente proclamá-lo. Na liturgia, a explicitação da palavra de Deus só se faz na homilia.

 

18 - Dadas as considerações anteriores sobre a palavra de Deus,com vistas também para o ministério do leitor, deve-se levar em conta que, para cumprir a sua função ministerial, o leitor deve cumprir algumas exigências, além daquelas já expostas acima, exigências que diríamos mínimas, e de ordem técnica, que seriam:

 

a) - O cuidado pessoal com a voz.

b) - O correto uso de instrumentos de som.

c) - A correta vocalização, ou seja, o cuidado de pronunciar bem cada palavra, cada sílaba.

d) - Saber regular o volume da voz, de modo que todos ouçam bem o que é dito, especialmente em fins de frase. Não ler então para si mesmo, “para dentro”. Dosar também emissões fortes e suaves, de acordo com o texto.

e) - Saber regular também o ritmo da leitura, reduzindo ou acelerando a emissãosegundo o caso, como também intercalando pausas, inserindo silêncio nas vírgulas, nos pontos, etc.

f) - Cuidar também da modulação da voz, mudando de tom, sempre que as variações do texto assim o exigir. O texto deve ser lido e interpretado de acordo com o seu gênero: profecia, narração histórica, texto sapiencial, carta ou epístola etc.

g) - Por último, uma recomendação de ordem física, a postura corporal. Esta ereta, com a cabeça levantada, olhando com frequëncia a assembléia, a fim de que haja verdadeira comunicação e diálogo vivo. É claro que isso exige exercício e aprendizagem, que não se consegue logo no início.

 

19 - Muitas comunidades não colocam em prática o que aqui se expõe com receio de afugentar os leitores, como se o que aqui se afirma fosse algo negativo, e não incentivo a uma participação ainda mais viva e consciente. É de se esperar, porém, que a própria comunidade ofereça não somente aos leitores, mas a todos aqueles que exercem um ministério na Igreja, a oportunidade de crescimento para o exercício de suas funções.

 

Nota: As considerações aqui feitas levaram em consideração somente a função do leitor, nada se referindo então ao diácono, no que diz respeito à sua função ministerial de proclamação do evangelho.

 

20 - Finalizando, deve-se afirmar que, dado o verdadeiro sentido dialogal da palavra de Deus, conclui-se facilmente pela inconveniência dos chamados folhetos litúrgicos na missa, pois na liturgia da palavra somos chamados a ouvir, escutar, olhando para o leitor, e não para o folhetinho. Creio que seriam tais folhetos úteis apenas quando trouxessem: o texto das aclamações da Oração Eucarística, o texto dos cantos e as citações bíblicas das leituras, do dia e da semana seguinte. Mesmo assim, quando a assembléia soubesse de cor o texto das aclamações, o folheto poderia ser só dos cantos, no chamado “mal menor”.

 

BIBLIOGRAFIA

 

- A Celebração na Igreja (Vol. I)

- A Sagrada Liturgia (SC)

João de Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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