Considerações sobre o Ecumenismo

ecumenismo.jpgO QUE É ECUMENISMO?

 

1 - O Concílio Vaticano II, através do Decreto "Unitatis Redintegratio", estabeleceu as normas, princípios e diretrizes do ecumenismo, definindo-o como movimento de unidade de todos os cristãos, isto é, daqueles que invocam o Deus Uno e Trino e confessam Jesus Cristo como o Senhor e Salvador, não só individualmente, mas também reunidos em assembléia.

2 - Os documentos de Puebla e de São Domingos, do episcopado latino-americano, enfatizam também a importância do ecumenismo, fazendo eco às palavras de João Paulo II: "O ecumenismo é uma prioridade na pastoral da Igreja do nosso tempo". Cristo, antevendo a divisão dos cristãos, já suplicava: "Pai, que todos sejam um como tu e eu somos um, para que o mundo creia que tu me enviaste" (Jo 17,21). Como afirma o Concílio Vaticano II, a divisão dos cristãos é o grande desafio de nossos tempos.

REGISTROS HISTÓRICOS DA DIVISÃO DOS CRISTÃOS

3 - Desde os primórdios, surgiram algumas cisões no seio da Igreja, censuradas pelos apóstolos como gravemente condenáveis (Cf. 1Cor 11,18-19; Gl 1,6-9; 1Jo 2,18-19). Dissensões maiores, porém, aconteceram nos séculos posteriores, como podemos aqui explicitar:

a) A cisão dos cristãos orientais, constituída em dois blocos distintos e principais: os nestorianos e monofisitas, que se separaram da Igreja em 431 e 451, respectivamente, por motivos doutrinários, chamados então "heterodoxos", e os cristãos ortodoxos, que se separaram da Igreja no grande cisma de 1054, por motivos disciplinares.

b) A reforma protestante do século XVI, hoje existente sob a forma de centenas de denominações independentes. Distingue-se atualmente entre protestantismo tradicional e protestantismo moderno. O protestantismo tradicional caracteriza-se por três tradições: a luterana, a calvinista e a anglicana. Já o protestantismo moderno caracteriza-se por uma dissidência da dissidência. É um protestantismo de índole radical, proselitista, de um modo geral sem erudição, quase sempre fundamentalista, com pequenas exceções.

DESAFIOS PASTORAIS NA AÇÃO DO ECUMENISMO

4 - Vê-se inicialmente uma confusão sobre este tema, quase sempre fruto de uma deficiente formação religiosa, bem como de outros fatores, não levados às vezes em consideração pela catequese. O decreto conciliar (UR 11) e o documento de Puebla (Puebla 1120) falam de justa "hierarquia de verdades", no que concerne à exposição da doutrina católica. Tais desafios podem ser assim descritos:

• O fundamentalismo proselitista de grupos cristãos sectários, que dificultam a sadia caminhada do ecumenismo, fechando todas as portas ao desejado diálogo.

• A má vontade de muitos cristãos, que não se dispõem a entrar na barca do ecumenismo, seja por falta de coragem, seja por indiferentismo.
• A deseducação de quase todos para um diálogo respeitoso, simples e construtivo.

• A ausência do ecumenismo nos programas de formação, desde a catequese infantil até os cursos de formação de adultos, mesmo na área teológica.

• A indiferença quase generalizada para com o ecumenismo, visto como ação reservada a poucos.

• A falsa ideia de que "diálogo ecumênico" é semelhante a lidar com "doença contagiosa": sempre haverá o perigo de "contágio". Então o recomendável é estar "bem alimentado e forte" (preparado com argumentos), para não cair na cisterna do inimigo. Ou então, também, o falso irenismo: é preciso "abrandar" muita coisa para que o outro aceite a nossa posição. Saibamos que esta "tática" é a pior inimiga do verdadeiro ecumenismo.

O QUE ESTÁ SENDO FEITO

5 - Muitos trabalhos têm sido desenvolvidos como ação ecumênica, que conta, felizmente, com a adesão efetiva de muitas igrejas protestantes e ortodoxas. Seis delas participam conosco do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC). São elas: a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, a Igreja Presbiteriana Unida, a Igreja Metodista, a Igreja Anglicana, a Igreja Ortodoxa Siriana e a Cristã Reformada. Com essas já há um diálogo em andamento e muito promissor e, mesmo ainda com algumas resistências, há caminhos e compromissos assumidos em conjunto. Nesse sentido, foi promovida a Campanha da Fraternidade, em conjunto, no ano de 2000.

6 - Na ótica do que acima se falou, pode-se ainda acrescentar, como pontos positivos da ação ecumênica:

a) A semana de oração pela unidade dos cristãos, colocada na linha litúrgica da semana que precede a solenidade de Pentecostes e valorizada pelas partes envolvidas, o que é grandemente positivo por se tratar sobretudo de um momento orante.

b) Algumas celebrações ecumênicas já realizadas, com êxito, e também ações pastorais assumidas em conjunto, sobretudo com tomada de posição frente a problemas sociais e políticos.

c) As ações pastorais de João Paulo II, a nível mundial, com vários encontros ecumênicos, e sua solicitude para com o ecumenismo, solicitude também agora encontrada,felizmente, em Bento XVI.

O QUE AINDA ESTÁ FALTANDO

7 - Dentre tantas necessidades, para uma ação ecumênica plena, destacam-se as seguintes:

• Uma sólida formação cristã de todo o povo, não para que fique "forte" para enfrentar "inimigos" e "adversários", mas para que viva autenticamente a sua fé.

• Aquela preocupação apresentada no Documento de São Domingos, ou seja, a formação ecumênica em cursos de formação para agentes de pastoral, principalmente nos seminários.

• A decisão de avivar mais ainda a oração em comum pela unidade dos cristãos, como também a intensificação do diálogo ecumênico em todos os níveis.

• O apreço em enfatizar sempre mais o que realmente nos une, e não dar tanta importância e espaço ao que nos separa.

• A necessidade de ver o ecumenismo não como um conjunto de ações, mas como um modo de entender a própria fé. O ecumenismo seria então um tipo de espiritualidade, sempre a exigir a conversão do coração. Jamais, pois, uma dominação diplomaticamente disfarçada. Em muitas ocasiões, quando se fala de ecumenismo, não nos fica essa idéia? E os dois lados, também não se olham com essa desconfiança?

8 - Outra medida acertada para com o ecumenismo seria não repetir os erros do passado, passando então para uma inversão positiva de comportamento, assim:

a) Não responder agressão com agressão.

b) Não julgar todos os grupos religiosos pelo comportamento de alguns de seus membros.

c) Amar as pessoas, mesmo quando mal intencionadas.

d) Aprender sempre mais, porém com o intuito de amar a Deus e aos irmãos, e nunca simplesmente para "vencer sempre o debate".

e) - Não perder tempo com a "guerra dos argumentos", sempre ineficaz, mas dar importância à dinâmica do amor e da vida.

PONTOS QUE PRECISAM SER AMADURECIDOS NO DIÁLOGO ECUMÊNICO

9 - Escrevendo sobre o ecumenismo, e depois de convocar todos os católicos ao empenho na busca do melhor relacionamento com os outros cristãos, João Paulo II destaca cinco pontos onde ainda precisamos de muito diálogo. São eles:

• A relação entre a Bíblia e a Tradição, como norma de fé

• A Eucaristia

• O sacramento da Ordem, para os ministérios de diáconos, presbíteros e bispos
• O magistério da Igreja, a autoridade do papa e dos bispos
• A relação dos cristãos com a Virgem Maria

CONCLUSÃO

10 - Pode-se dizer, por essas breves considerações, que o ecumenismo, mais que tarefa de especialistas, é dever de todos os cristãos, pois supõe uma vida cristã vivida na plenitude do evangelho, ou seja: na caridade, no amor, na justiça, na compreensão, no perdão e na misericórdia.

João de Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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