O Deus da revelação bíblica

Como a Bíblia nos revela o Deus da vida

1 – Pela fé cristã sabemos que só Deus sabe falar de si mesmo, só ele se conhece perfeitamente. E se muitos na Igreja tiveram noções mais claras de Deus, como os Apóstolos e os Santos Padres, por exemplo, não foi por mérito próprio, mas por ação do Espírito Santo, pois só o Espírito de Deus perscruta os insondáveis desígnios de Deus (cf. 1Cor 2,10). Como a Bíblia é a Palavra de Deus, então ela nos fala de Deus com toda a verdade, pois é Deus mesmo quem nos fala através da Bíblia. Poderia alguém perguntar: E como Ele se nos revela através da Bíblia? Responderíamos: De maneira viva e existencial, partindo da própria vida, dos acontecimentos e da história. Contudo, não tem a Bíblia a preocupação de dar informações sobre Deus, de falar sobre ele, como às vezes acontece nas especulações humanas e teológicas.

Jesus Cristo é o centro de toda a Bíblia

2 - A preocupação bíblica é, sim, de revelar-nos a paternidade afetiva de Deus, seu amor misericordioso para conosco e suas promessas de salvação, que nunca falham (cf. Js 23,14). Nas Sagradas Escrituras, a pessoa central é Jesus Cristo, o Unigênito do Pai, centralidade que ele ocupa mesmo no Antigo Testamento, onde, como verdadeiro profeta, aparece citado por Moisés (cf. Dt 18,5), texto bíblico cuja aplicação a Cristo foi feita por Pedro no início da Igreja (cf. At 3,22). Ainda no AT aparece como que em gestação (cf. Is 11,1-5), destinado a ser “um sinal para as nações” (cf. Is 11,12). Finalmente, vai aparecer no Novo Testamento, em centralidade mais profunda ainda, na cena da transfiguração como exemplo, como o Filho amado de Deus, a quem devemos ouvir (cf. Mt 17,5), ou como o Sol da justiça, “o Sol que vem do alto”, a fim de guiar nossos passos nos caminhos da paz (cf. Lc 1,78-79). Ao lado destes textos, no Novo Testamento, principalmente os evangelhos nos revelam a presença de Deus entre nós, na pessoa de seu Filho, que se fez homem, mas que é eternamente Deus com o Pai e com o Espírito Santo, sendo, ao mesmo tempo, Deus e homem, em mistério infinito de amor. 

Os sentimentos e afeições de Deus, segundo a Bíblia 

3 – O Deus que a Bíblia nos revela não é então um Deus distante, criador do mundo, todo-poderoso, é verdade, mas despreocupado com a sorte dos homens e com o destino da história, insensível, como muitos pensam,  a tantas crueldades humanas de que foram, são e serão, infelizmente, vítimas milhões de seus filhos, dada a realidade do pecado, que ainda encontra morada no coração dos homens.  Os sentimentos do Deus bíblico são, ao contrário, de solicitude paterna e de afeições amorosas para com todos os homens, sempre presente em nossa vida e, podemos dizer, sempre em estado de audiência, de diálogo respeitoso e de atenção para com os seus filhos (cf. Is 1,18; 43,26), para os quais sempre se mostra cheio de compaixão e de misericórdia.

A familiaridade com Deus, um dado da fé 

4 – O fundamental, pois, da fé bíblica consiste numa profunda familiaridade com Deus, num profundo senso de sua presença salvadora, presença que se traduz sempre em fiel cumprimento de suas promessas. A verdadeira fé bíblica nos leva a uma experiência de Deus como Pai, e isto no sentido mais pleno e teológico da palavra, paternidade divina que aqui é experimentada como presença viva do Pai, não, pois, meramente sentimental e psicológica. Uma experiência, pois, de intimidade, de imanência, esta mais real ainda no Novo Testamento, onde a salvação se torna definitiva em Cristo e onde Deus se manifesta concretamente na face do Salvador (cf. Jo 14,8-9). Além disso, o Filho, como Deus que é, consubstancial ao Pai, vai mostrar-se presente sobretudo na pessoa dos pobres, marginalizados, doentes, presos e excluídos (cf. Mt 25,31-45), além de sua presença sacramental na Liturgia, sobretudo nas espécies eucarísticas. 

O Deus bíblico é o Deus dos vivos 

5 – O Deus da Bíblia é o “Deus dos vivos”, saibamos com toda a certeza (cf. Ex 3,6; Sb 2,23; Jr 32,27; Mt 22,32; Lc 20,38). É o Deus da Aliança que, a favor de seu povo, realiza maravilhas de amor, principalmente quando se trata dos humildes, pobres e oprimidos (cf. 1Sm 2,8; Lc 1,46-55). Portanto, sendo Vida (cf. Jo 14,6), e vida em plenitude (cf. Jo 10,10), Deus rejeita a morte como fim absoluto, aceitando-a simplesmente como passagem do provisório para o definitivo e eterno. Assim, como suposta inimiga, ela será destruída definitivamente (cf. 1Cor 15,26), como Cristo já o fez, em nosso favor, pela sua ressurreição (cf. Jo 11,25). Saibamos porém que, como realidade biológica, a morte é fatal e faz parte da natureza humana, lembrando-nos de que, mesmo de seu Filho amado, enquanto humano e presente no mundo, Deus fez um ser mortal, o que muito nos conforta.

O Deus da Bíblia, dos cristãos, é um Deus Uno e Trino 

6 - Mistério sublime, infinito e impenetrável pela mente humana. Jamais saberíamos que o nosso Deus é Uno e Trino se tal mistério não nos tivesse sido revelado pelo próprio Filho de Deus, nos seus diálogos íntimos com o Pai e por suas revelações e ensinamentos aos Apóstolos, como nos mostra sobretudo o Evangelho de São João. Uno: um só Deus, uma só natureza divina, a mesma essência e a mesma substância; trino: três Pessoas realmente distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. O Pai, Princípio sem princípio, não criado nem gerado; o Filho, não criado, mas gerado pelo Pai, porém em geração eterna; e o Espírito Santo, não gerado nem criado, mas procedente do Pai e do Filho, também em processão eterna. Embora em nossa limitação humana, quando nos referimos à Trindade, colocamos o Pai como primeira Pessoa, o Filho como segunda e o Espírito Santo como terceira, na verdade estamos confessando a nossa incapacidade de compreender o mistério, pois as pessoas divinas são coeternas, ou seja, existem juntas desde sempre. Em outras palavras: nem o Pai existe antes do Filho, nem o Filho existe antes do Espírito Santo.

Nota: Uma fórmula bíblica, do mistério trinitário, é o texto de 2Cor 13,13, a qual deu origem à saudação do sacerdote no início de nossa celebração eucarística, conclamando-nos no início da Liturgia a entrarmos em comunhão com o Deus trinitário, mistério de nossa fé. Já como aplicação para a vida cristã, são significativos os textos de 2Ts 2,13-14 e Rm 15, 15-16, dentre outros.


As exigências da salvação de Deus 

7 – Como tudo na vida, a salvação exige amadurecimento, crescimento e frutos copiosos, o que supõe profunda comunhão com Deus e com os irmãos. Exige, sim, abertura às ações do Espírito e desapego de valores relativos e materiais. De fato, Deus, que é todo santidade (cf. Lv 11,44; Os 11,9), quer que todos sejamos santos, isto é, que vivamos a nossa vida em comunhão sempre viva e crescente com ele (cf. Lv 19,2; Is 42,6) e com os irmãos. E aqui - entendamos - nossa santidade deve ser objetiva e subjetiva. Objetiva, enquanto santidade que é, antes de tudo, santidade do Corpo de Cristo, da Igreja, santidade então que recebemos como dom, pelo Batismo, e que deve refulgir em nossa vida cristã como louvor a Deus e fervor missionário em favor dos homens. E também santidade subjetiva, pessoal, cultivada por nós, na vivência sacramental, sobretudo da Eucaristia, revelando toda a nossa vida fortemente configurada a Cristo e como busca feliz da plena realização no plano do Pai.

Transcendência e imanência do Deus bíblico 

8 – O Deus da Bíblia é transcendente, isto é, eqüidistante do mundo e dos homens, como é próprio da natureza divina, mas é também imanente, ou seja, profundamente familiar e presente no nosso meio, entre nós e em nós. A alegria de Deus é tornar-nos felizes e alegres, creiamos, e ele está mais próximo de nós do que nós mesmos. No dinamismo de fé cristã, podemos até dizer que a imanência de Deus é mais viva para nós que sua transcendência, visto que fomos ensinados a chamar Deus de Pai (cf. Mt 6,9; Lc 11,2; 1Jo 3,1), o que não acontece com outras religiões. A Bíblia mostra, pois, em admirável harmonia, o equilíbrio entre a transcendência e a imanência de Deus. Sobre a transcendência, apenas como pequenas citações, podemos ver Is 40,13-14; 1Rs 8,27. Já de imanência, mesmo no AT, onde era fraca essa percepção, podemos ver, como exemplo Lv 26,11-13; Dt 4,7; Ez 36,27, e, no NT, todos os textos que falam de Cristo e de sua intimidade com o Pai, por exemplo.

“Ciúme” e exigências de Deus 

9 - Sim, Deus não admite concorrentes, tal é o seu amor por nós (cf. Ex 20,5; Dt 4,24; 5,9; 6,14-16). O “ciúme”, pois, de Deus, segundo a Bíblia de Jerusalém, “é o próprio Excesso do amor por nós”. É próprio de Deus amar, pois ele é amor (cf. 1Jo 4,16). Coloquemos isto no nosso coração, nos nossos lábios e na nossa mente: Deus não faz outra coisa senão amar, e amar apaixonadamente.

A salvação de Deus precede a sua obra criadora 

10 - Isto significa que Deus não nos criou simplesmente, pensando num futuro feliz para nós. Criou-nos, sim, para nos salvar. Em outras palavras, foi pensando em nossa salvação que Deus nos criou. Por isso, a obra da redenção precede a obra da criação. Portanto, a salvação não é um remendo no plano de Deus. É isso que nos ensina São Paulo, com clareza, no riquíssimo texto de Ef 1,3-14 e que pode ser assimilado também em todo o ministério salvífico do Filho de Deus.


OS DIVERSOS ASPECTOS DA SALVAÇÃO BÍBLICA

11 – No projeto amoroso de Deus, a salvação, que nos é oferecida, se desenvolve num plano que é ao mesmo tempo:

a) – Histórico e vivencial

Na experiência da fé cristã, somos chamados a entender que é no dinamismo da história e da vida que aparece a iniciativa salvífica de Deus, pois “ele está no meio de nós”, como proclamamos na Liturgia e como já era revelado na Antiga Aliança (cf. Dt 4,20; Lv 26,11; Ez 37,27), como também na culminância do Novo Testamento (cf. Ap 21,3). Assim, Deus nos quer trabalhando na construção de seu reino, e ninguém está isento dessa tarefa salutar. Portanto, é fazendo memória do passado, vivendo o presente no hoje concreto de nossa vida e construindo a esperança de um mundo melhor, mais justo e solidário, que nos tornamos parceiros de Deus na sua obra de criação e de redenção. Assim, não nos iludamos: Deus nos quer em parceria com ele e jamais vai aceitar que nossa vida se resuma numa mera esperança passiva da eternidade após a morte, em outras palavras, que sejamos todos meros beneficiários de sua bondade salvadora.

b) – Comunitário e social

É sabido que Deus não nos quer solitários, mas solidários, engajados num povo (a Igreja), comprometidos com o Evangelho, sensíveis à fraternidade, sendo que o culto que devemos prestar a ele deve efetivar-se em dimensão litúrgica, “em espírito e verdade”, culto que Cristo inaugurou na Terra, como eterno cântico de louvor ao Pai e que foi revelado inicialmente à samaritana (cf. Jo 4,21-24). Note-se que o culto da devoção, como expressão de piedade popular, mesmo com seu valor para a vida cristã, por ser fortemente individual, particular, é, neste caso, colocado em segundo plano. Deduz-se, pois, que a salvação bíblica exige engajamento numa comunidade que é, ao mesmo tempo, comunidade de fé, de culto e de amor.

c) – Evolutivo

No pensamento bíblico está a certeza de que Deus quer que cresçamos cada vez mais interiormente, santificando-nos (cf. Lv 11,44; 19,2; Mt 5,48); que desenvolvamos nossos talentos e descubramos nossa vocação para a santidade. Ele não aceita, podemos afirmar, a humildade falsa de quem jamais lutou para crescer, para desenvolver-se, para aproximar-se dele em relação amorosa. É verdade que o processo de salvação se desenvolve quase sempre lentamente, porém é sempre gradativo. Tal processo é, pois, típico de caminhada, muitas vezes exigindo uma aprendizagem dolorosa.

Nota: Como exemplos de processo de aprendizagem dolorosa, podemos citar: No AT: cativeiro no Egito, caminhada no deserto, cativeiro na Babilônia, destruição do Templo de Jerusalém, e outros fatos. Já no NT, na Igreja, podemos citar: As exigências do sermão da montanha, conforme Mt 5-7; como também os apelos e ensinamentos de Mt 8,22; de Mc 8,34-38; de Lc 9,57-62, e tantos outros que conhecemos nos evangelhos.

d) – Universal

Deus, embora tenha escolhido um povo, não faz acepção de pessoas ou de povos, mas oferece a salvação a todos os povos. O povo por ele escolhido (No AT, o povo de Israel, e no NT, a Igreja), deve ser um sinal referencial de salvação para os outros povos, como “estandarte erguido diante das nações” (cf. Is 11,12), marca eclesial que é mostrada ao mundo pela liturgia (cf. SC n. 2). Na linguagem do Concílio Vaticano II, a Igreja é “sacramento universal de salvação” (cf. LG n. 48b) e “sacramento de unidade” (cf. SC n. 26). Note-se que este aspecto da salvação era fracamente percebido no AT. Jonas, enviado a Nínive, para pregar a conversão, tomou outro caminho, e, mesmo tendo sido forçado a chegar à cidade, e pregado ao povo, afastou-se de Nínive, à espera de sua destruição, atitude que reflete a mesquinhez humana, mesmo tratando-se de um grande profeta. O povo por Deus escolhido torna-se, pois, no seu plano de salvação, povo mediador, povo da esperança, mesmo com todas as suas falhas e limitações humanas.


BIBLIOGRAFIA


- Constituição Dogmática “Lumen Gentium” - LG

- Constituição “Sacrosanctum Concilium” – SC

- Bíblia de Jerusalém


João de Araújo

 

 

 

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