História de paz e de salvação

historia-paz-salvacao.jpgUm dia, nas estradas poeirentas da Palestina, provindo de uma região sem importância histórica (Jo 1,46; 7,52), e descendente de uma humilde família de Nazaré (Mt 2,23), apareceu um jovem, tão comum quanto os outros jovens e mais simples, aliás, que a própria simplicidade.

Nascido de uma virgem (Is7,14), em mistério imperscrutável (Lc 1,31-35; Mt 1,22), e tendo como pai, adotivo, um simples carpinteiro (Mt 1,19; Mc 6,3), era, pois, o jovem sem pretensões sociais e desprovido de todo espírito de grandeza.

Humano como todos os homens, mas sem a chaga do pecado (Jo 8,46), seu nascimento se deu numa gruta, tendo como berço uma manjedoura e como visitantes ilustres animais do campo e pastores da região (Lc 2,6-20). Segundo se diz, não havia lugar para eles nas hospedarias da cidade.


Uma observação


Até hoje, na ausência de espaço para esse menino (não tanto espaço físico, mas espaço interior, nos corações), se no mundo, em sentido amplo, este se torna, quase sempre, um mar de lama; se na família, perde esta o seu encanto irradiador; se na pessoa, individualmente, esta se embrutece e se esvazia de sentimentos puros.


A história do galileu vai, assim, desde o início, se revelando como história de amor, de paz e de salvação.

Segundo também se diz, ele nasceu num dia movimentado. Realizava-se na cidade um censo demográfico (Lc 2,1). O imperador, insensível, e coberto de vaidades, não sabia quantos vassalos possuía, o que não ficava bem para um grande rei e para o império. E sua majestade mandou promover então o censo.

Mas a história diz que, mesmo tendo nascido o jovem galileu em tempo de barulho, pelas maquinações dos poderosos, tempo de ruído, a serviço da vaidade, tempo também de lamentos de um povo oprimido, sua vida foi sempre um profundo silêncio (Cf. Is 42,2; 53,7; Jo 19,10), até mesmo quando, mais tarde, ouviu ele de um tribunal iníquo a sentença de sua morte, por uma subversão que não fez, e por um crime que não praticou, e mesmo quando, diante da sentença injusta, carregou sua própria cruz, a caminho do lugar onde foi crucificado (Mt 27,26; Mc 15,15; Lc 23,24; Jo 19,16-18). Silenciosos eram também seus próprios pais. E mais silencioso ainda era o seu próprio Deus.

Pois bem. Como se dizia antes, aquele jovem, garoto de toda a eternidade, apareceu, assim, falando de um novo reino. Falava de lírios do campo, das aves do céu (Mt 6,26.28-30), da sorte feliz dos pequeninos, do perdão de um Pai misericordioso (Lc 6,36), enchendo assim de viva esperança os corações desolados. Mas tal reino, inteiramente novo, presente no mundo, mas não do mundo, não foi, pelo jovem, registrado em cartório, nem dele recebeu um nome institucional. Mais tarde, com as iluminações do Espírito Santo, todos puderam então entender que não se tratava realmente de uma idéia, com direitos autorais, mas de um fato, de um acontecimento, ou, mais propriamente, de uma história de salvação. Não era, pois, uma instituição a mais, nem mesmo uma nova religião. Tratava-se, é verdade, de um verdadeiro reino, reino de amor, sem limites, no espaço e no tempo. Daí, sem uma qualificação possível. Era, sim, uma novidade, uma boa nova.

Cresce, pois, o garoto, sempre mais, em idade e sabedoria, diante de Deus e dos homens (Lc 2,52), e começa então, concretamente, sua missão redentora, nos horizontes do tempo. Mestre por excelência (Mt 23,8; Jo 13,13), diferente, pois, de todos os mestres, ele, primeiro, põe-se ao alcance de seus ouvintes e discípulos, respondendo, com lições de pura simplicidade, a aspiração última de seus corações. Numa pedagogia profundamente existencial, abre horizontes para as multidões, conquistando-as e mostrando-lhes o verdadeiro sentido da vida. Sem que ninguém vivamente percebesse, pois seus critérios não eram os dos fariseus e dos doutores de seu tempo, ele ensina justamente o oposto que era por todos ensinado.

Na síntese admirável de suas pregações, dizia, pois, entre muitas coisas, que os pobres eram os possuidores de seu reino; que os que sofriam eram verdadeiramente felizes; que os puros de coração veriam a Deus; que os misericordiosos haveriam de alcançar misericórdia; que os mansos possuiriam a terra (Mt 5,3-11); e tantas outras verdades, jamais antes pregadas e jamais antes trazidas para o consolo dos simples. Mas, por não ser a sua doutrina a dos homens, ela pisava no calo de muita gente. Mexia com os poderosos e os inquietava. De "sepulcro caiado" era chamada muita gente importante, e de mercenários eram também chamados até chefes religiosos e líderes do povo, por não serem eles verdadeiros pastores de suas ovelhas (Ez 34,4; Mt 23,13-32). Quando uma denúncia, maliciosa, lhe foi trazida, o jovem pregador sugeriu àquele que não tivesse pecado atirar a primeira pedra na mulher pública, vítima de tal denúncia. Velhos e moços se retiraram, não pondo em prática a proposta do Mestre (Jo 8,3-9). Dá para entender!

Pregando sempre a um povo politicamente oprimido, ele jamais, porém, destruiu, em suas pregações, a soberania política de César sobre esse povo, mas antes até falou da obrigatoriedade de se pagar o imposto a César (Mt 22,21; Mc 12,17; Lc 20,25). Assim, no entender de muitos, ele não podia ser, absolutamente não, o verdadeiro libertador de seu povo. Como acreditar num rei que, em dia de triunfo, entra na cidade montado num simples jumentinho, e, além do mais, tomado emprestado? (Mt 21,1-3). Não, os reis, os verdadeiros reis desfilam em carruagens brilhantes, ou vêm montados em lustrosos corcéis, quando não vêm carregados em tronos reais. No passado, como ainda hoje, eles vêm antecedidos por batedores oficiais, num ruído infernal, para serem vistos, seguidos às vezes por carros pretos, que mais lembram um grande enterro da pobre realeza temporal.

Mas, não era assim o jovem da história. Abraão sonhava com os seus dias, afirmava ele (Jo 8,56). E se o questionavam, pondo em evidência a idade dele como tempo de Abraão, afirmava, seguramente, que, antes mesmo que Abraão existisse, ele já existia (Jo 8,57-58). O jovem era então preexistente, isto é, existia antes já de todo o início, e sua história humana era também acompanhada de uma pré-história, o que os mestres de seu tempo ignoravam totalmente. Sobre sua vida, sua missão, seu ministério salvífico, séculos e séculos já haviam ensinado e informado.



Aspectos difíceis de sua vida já tinham sido revelados. Sua existência temporal era, pois, como que o irromper de sua preexistência, de sua processão divina do Pai. Sua encarnação humana não era apenas um fato maravilhoso, mas sim um milagre de amor, de bondade e de misericórdia. Não vinha ao mundo para condenar o mundo, mas para salvá-lo (Jo 3,17). Não vinha para ser servido, mas para servir (Mt 20,28; Mc 10,45; Lc 22,27). Não vinha para limitar ainda mais a liberdade dos homens, mas para restituir-lhes a verdadeira liberdade (Jo 8,36; Gl 5,1), tomada pelo pecado, com a ação malígna do "príncipe das trevas". Vinha, pois, para reconciliar todas as coisas, nele próprio criadas e nele próprio subsistentes. Era salvador universal, não só da humanidade, como um todo, mas também de todo o cosmos e de toda criatura.

Deus, de cujo coração brotou tal mistério de amor, desde toda a eternidade, quis assim revelar ao mundo alguns traços de seu Enviado, para que, chegada a plenitude dos tempos (Gl 4,4), o próprio mundo pudesse reconhecer a fisionomia de seu redentor. Assim, a história do jovem galileu é precedida então de uma pré-história. E isto ele mesmo vai dizer aos amigos, depois de ressuscitado, na estrada de Emaús. Convinha, pois, que ele sofresse muito (Is 53,3-12), que fosse cortado da terra e, como semente, sepultado (Is 53,8). Nasceria em Belém (Mq 5,1), e reinaria no espaço (Zc 9,10), como também no tempo (Is 9,5-6). Teria morte de cruz (Dt 21,23) e seria sepultado em túmulo alheio, e de rico (Is 53,9).



Nasceria de uma virgem (Is 7,14), mas não antes que Judá perdesse o cetro (Gn 49,10). Seria rei universal (Sl 109,1(110); Is 49,1-7), o desejado das nações (Is 2,1.5; 45,8). Não realizaria a sua própria vontade, mas a do Pai (Is 42,1). Ressuscitaria no terceiro dia (Os 6,2), e inauguraria na Terra o eterno louvor de Deus (Ml 1,11). Seria descendente de Abraão (Gn 12,2), e da tribo de Judá (Gn 49,10). Clamaria por Deus, nos últimos instantes da vida (Sl 21,2(22), e muitos dele zombariam em sua morte (Sl 21,8-9(22). Teria as mãos e os pés cravados (Sl 21,17(22), e o coração transpassado por uma lança (Zc 12,10). Seria traído por um amigo (Sl 40,10(41). Levado em fuga para o Egito, de lá seria chamado pelo próprio Deus (Os 11,1). Seriam mortas muitas crianças por causa dele (Jr 31,15). Poder-se-ia contar todos os seus ossos (Sl 21,18(22), porém nenhum deles seria quebrado (Nm 9,12). Seria sacerdote eterno, não segundo a carne e a lei, mas segundo a graça e o Espírito (Sl 109,4 (110).

Eis, pois, alguns dos aspectos vivenciais do Salvador, já proclamados séculos antes de seu Natal. Esses fatos, e tantos outros, como os das considerações seguintes, tornam o jovem galileu singular em toda a História.

Em suas pregações salvíficas, jamais disse que ele era um dos caminhos, e que sua doutrina conduzia simplesmente a uma vida nova. Não disse também que a verdade era um bem a ser buscado, um ideal, pois, abstrato e utópico. Mas afirmou, e com toda autoridade, que ele era o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6), sem dar chances de mediação a qualquer outro possível redentor. Não pregava outra verdade que não fosse ele próprio.



Sua doutrina identificava-se com a sua pessoa, sendo, pois, essencialmente personalista, e não um amontoado de proposições e de idéias vagas. Ninguém, pois, até hoje teve a ousadia de personificar a verdade como ele o fez. E ninguém, até hoje, ousou dizer: "Qual de vocês pode me acusar de algum pecado"? (Jo 8,46), mostrando assim ser ele verdadeiramente santo e verdadeiramente Deus.



Nas exortações, era de espírito prático: "Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei" (Jo 15,12), afirmando um valor existencial já por ele vivido, e não simplesmente desejado. E fez assim do amor a síntese das leis, (Mt 7,12; Rm 13,8-10), o sinal visível de seu reino. Era uma doutrina de paradoxos, sim. Os que quisessem ser seus discípulos, propunha ele renunciar a si mesmos, tomar também uma cruz e seguí-lo (Lc 9,23; 14,27).



Os que amassem pai e mãe mais do que a ele não seriam dignos dele (Mt 10,37). Os que procurassem salvar a própria vida, perdê-la-iam, mas os que a perdessem, por causa dele, iriam salvá-la (Lc 9,24). Colocava na cabeça dos discípulos que seriam eles vítimas de brutais perseguições por causa do nome dele (Jo 16,2.33).



Mas também, nos milagres que fazia, colocava uma objetividade redentora, diferente dos milagreiros atuais e de todos os tempos, não permitindo que fossem tais milagres vistos e aceitos como meros favores espirituais, ou como meros privilégios. Não permitia assim que fossem procurados como fim, quando, na pedagogia da salvação, são eles simples meios de conversão interior, na gratuidade redentora do Deus misericordioso (Jo 6,26-29).

Tentado também, como todos os homens, o jovem galileu jogava, porém, o tentador para contínuos escanteios, usando recursos de profunda simplicidade e de profunda fidelidade à vontade do Pai (Mt 4,4.7.10; Lc 4,4.8.12, como também Jo 4,34). Diferente de nós - que gostamos de ser diferentes - ele exortava a todos a buscar a perfeição de Deus (Mt 6,48), e ao Pai pedia, em preces de fervor, para que todos os homens fossem um só homem, a exemplo de sua própria unidade no Pai (Jo 17,21).

Esta é, pois, caríssimo leitor, uma pequena síntese da vida do jovem galileu. O nome dele creio que já sabes. Por isso não o citei nesta história. Ele se encontra em qualquer cruz, de braços abertos, esperando por ti, para dar-te um abraço amigo. Mas ele está sobretudo em teu coração. Não te encontras simplesmente dentro do reino dele, embora isso seja verdade também, mas é o reino dele que se encontra mais dentro de ti. Conversa então com o jovem da Galiléia, na simplicidade de irmãos, e ele te contará melhor a sua própria história, mostrando-te que ela é tão dele quanto tua também. E tu te sentirás feliz, plenamente feliz, por seres também um cristão.

João de Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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