Considerações sobre a Eucaristia

 

1 - O Concílio Vaticano II (cf. SC n. 47), superando em clareza a doutrina do Concílio de Trento, afirma que a Eucaristia perpetua pelos séculos o Sacrifício da Cruz. Essa afirmação da Igreja relaciona o sacrifício eucarístico com o do Calvário, ou seja, afirma a unicidade do sacrifício de Cristo, afastando, pois, felizmente, toda e qualquer ideia de novo sacrifício. Hoje tem-se a consciência de que o Sacrifício do Calvário torna-se presente na Liturgia, não como repetição histórica, mas de maneira sacramental, em mistério, e com toda a sua eficácia redentora.

2 - Diz-se com acerto que a Eucaristia recebe do Calvário a sua dimensão sacrifical e, do Cenáculo, a sua dimensão convivial. Mas não se trata, na Eucaristia, de um sacrifício seguido de uma ceia, mas de um feito salvífico, que é sacrifício e alimento ao mesmo tempo. A finalidade primária da Eucaristia é tornar-nos um só corpo com Cristo, mediante a comunhão de seu corpo sacramental, e a segunda invocação (epiclese) do Espírito Santo na Oração Eucarística é sobre os comungantes, para que se realize o que aqui se afirma.

3 - Como vimos, a Eucaristia não é então “repetição” da Ceia do Cenáculo, pois esta, como fato histórico, é irrepetível, como também irrepetível, como evento histórico, é o Sacrifício do Cruz. Assim, a primeira celebração eucarística realizou-se depois de Pentecostes, continuando a sua repetibilidade ritual até o fim dos tempos, como páscoa das gerações (cf. SC n. 6), cumprindo a ordem de iteração de Cristo: “Fazei isto em memória de mim” (cf. Lc 22,19; 1Cor 11,24-25).

4 - Na era apostólica, a missa chamava-se “Fração do Pão” (cf. At 2,42) e, depois, "Ceia do Senhor" (cf. 1Cor 11,20), nomes relacionados mais ao sentido de “refeição”, mas já em fins do século I e princípios do século II, com a Didaché e com escritos de Santo Inácio de Antioquia, começa a ser adotado o nome de “Eucaristia”, apontando agora mais para o sentido de “ação de graças”. Devemos, porém, entender “ação de graças” não no sentido popular de “agradecer” simplesmente, mas no sentido literário da oração judaica “todá”, (confissão), ou seja, trata-se de “confessar” a fidelidade de Deus, louvando-o pelas maravilhas operadas na história da salvação, ao mesmo tempo que “confessamos” a nossa infidelidade.

5 - O nome “Eucaristia”, que designa tanto a celebração como o sacramento, predomina, pois, principalmente em formulações litúrgicas e teológicas, enquanto o nome “missa”, que significava no latim tardio “sacrifício” (“Ite, Missa est” = “Ide, acabou o sacrifício”), está muito vivo na mente dos fiéis e nas agendas das igrejas e comunidades, mas numa referência limitada à celebração.

6 - Conforme as Escrituras (Hb 7,27; 9,28a; 10,12; 1Pd 3,18), Cristo morreu uma só vez pelos nossos pecados, oferecendo-se a si mesmo ao Pai, mas, na véspera de sua paixão, para tornar perene tal sacrifício, quis celebrá-lo antecipadamente com seus discípulos. Sacrifício de louvor (cf. Ml 1,11), a Eucaristia é de valor infinito, mas requer, para a sua plena eficácia, a reta intenção de todos os participantes, na cooperação com a graça do alto (cf. SC nº 11), daí a necessária formação litúrgica de todos os fiéis.

7 - Celebrada, pois, em memória de Cristo, a Eucaristia não é, porém, simples lembrança ou simples memória do Sacrifício da Cruz, mas memorial, no sentido também judaico, ou seja, o sacrifício como tal, presente no mistério eucarístico, de maneira sacramental, como acima se falou. Nos sinais sensíveis do pão e do vinho, transubstanciados, Cristo se faz presente, de maneira viva, para ser alimento salutar de seu povo, em feliz caminhada para a casa do Pai.

8 - Um dado teológico, e que pode ser novo para muitos, é que Cristo traz presente “em sua pessoa” todos os atos salvadores de Deus, tornando-os contemporâneos nossos. Na certeza dessa verdade, todos os cinco prefácios da Páscoa vão dizer: “neste tempo solene em que Cristo, nossa Páscoa, foi imolado” (cf. 1Cor 5,7). Uma observação valiosa: tanto Paulo como os Prefácios chamam a Cristo de “nossa Páscoa”, ou seja, Cristo mesmo “é” a Páscoa cristã, agora e sempre, afastando o entendimento de que a Páscoa “foi” um acontecimento na vida de Cristo e, como tal, um fato já então passado. Observemos ainda outra clareza teológica: “neste tempo”, e não “naquele tempo”, pois o “agora, nestes dias que são os últimos”, de Hb 1,2, é também o nosso “hoje”, o nosso “agora”, dado o caráter sacramental da Liturgia. Entendamos: o momento litúrgico não é tanto “tempo cósmico”, mensurável, mas “tempo de salvação” (Kairós), ou seja, “tempo de Deus”, portanto imensurável.

9 - Nas palavras de São Fulgêncio de Ruspe, Cristo, na história da salvação, “é, ao mesmo tempo, sacerdote e sacrifício, Deus e templo”. Também na celebração da Eucaristia, podemos dizer, seguindo a teologia eucarística, que Cristo é, ao mesmo tempo, sacerdote, altar, cordeiro e Deus. “Sacerdote, por quem somos reconciliados; altar, onde somos reconciliados; cordeiro, pelo qual somos reconciliados; e Deus, com quem somos reconciliados”. E na verticalidade dessa reconciliação, acontece também a nossa reconciliação em dimensão horizontal, isto é, com os irmãos, com a Igreja, com a natureza, e cada um se vê reconciliado consigo mesmo. A cruz nos apresenta a dupla dimensão da reconciliação cristã: vertical e horizontal.

10 - A Eucaristia é celebração de fraternidade e, ao mesmo tempo, sua fonte viva, pois, sendo pura ação de graças, leva-nos não somente à comunhão com Deus, mas também, como exigência do próprio Deus, à comunhão com os nossos irmãos. Constrói-se, pois, a fraternidade a partir da celebração eucarística, e a oração do Pai Nosso, antes da Comunhão, quer nos despertar para esse compromisso da Eucaristia.

11 - Sendo expressão viva do Mistério Pascal de Cristo, a Eucaristia deve trazer em seus ritos litúrgicos a simplicidade do mistério, com sua força transformadora e salvífica, o que torna a celebração realmente mistagógica. Assim, em toda a Liturgia, mas na celebração eucarística principalmente, cada elemento (rito-gesto-canto-símbolo) tem uma função litúrgica própria, como também uma função ministerial, ou seja, cada elemento encontra a sua identificação (o que é), e sua ministerialidade (para que serve) no âmbito da celebração.

João de Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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