Quaresma, preparação para a Páscoa

QUALIFICAÇÃO SIMBÓLICA E LITÚRGICA - Deserto, o lugar da Quaresma de Cristo e de todos nós (Cf. Lc 4,1-2a)

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1 - A palavra "Quaresma" vem do latim "quadragésima", isto é, "quarenta", e está ligada a acontecimentos bíblicos, que dizem respeito à história da salvação: jejum de Moisés no Monte Sinai, caminhada de Elias para o Monte Horeb, caminhada do povo de Israel pelo deserto, jejum de Cristo no deserto etc.. Como se vê, é um tempo, pois, cheio de reminiscências bíblicas, o que dá mais ainda à Liturgia uma profunda conotação com a história da salvação. Com a Quaresma tem início o ciclo da páscoa.

2 - Chamado, liturgicamente, de tempo de preparação penitencial para a Páscoa, a Quaresma, a exemplo também do Advento, tem dois momentos distintos: o primeiro vai da Quarta-Feira de Cinzas até o Domingo da Paixão e de Ramos, e o segundo, como preparação imediata, vai do Domingo de Ramos até à tarde de Quinta-Feira Santa, quando se encerra então o tempo quaresmal e se inicia o Tríduo Pascal. Sendo tempo penitencial, para a Liturgia da Quaresma a cor própria é o roxo, exceto para o Domingo de Ramos, cuja cor é o vermelho.

3 - O tempo da Quaresma é tempo privilegiado na vida da Igreja, tempo de conversão e de mudança de vida. Nele não se celebra a memória dos santos, a não ser como memória facultativa, e dentro das normas litúrgicas, tanto para a missa como para a Liturgia das Horas. A palavra-chave da Quaresma é conversão, em grego "metanoia". Nesse tempo somos chamados aos exercícios quaresmais da prática da caridade e das obras de misericórdia. O jejum, a esmola e a oração, exercícios bíblicos de piedade, são também recomendados, na imitação da espiritualidade judaica.

4 - Além dos exercícios acima, no Brasil, durante a Quaresma, realiza-se a Campanha da Fraternidade, com sua proposta concreta de ajuda aos irmãos, na vivência evangélica, focalizando sempre um tema da vida social. Dois sacramentos estão também na linha pastoral da Quaresma: o Batismo e a Penitência. Somos, pois, chamados a tomar consciência de nossa fé batismal, assumindo-a mais vivamente, como também a vivermos a dimensão penitencial de nossa vida sobretudo pelo sacramento da Penitência ou Confissão.

OS DOMINGOS DA QUARESMA

5 - Seis são os domingos da Quaresma, sendo o sexto já o Domingo de Ramos e da Paixão. Como no Advento, também a Quaresma tem o seu domingo da alegria, o quarto, chamado "Laetare". A antífona de entrada na Liturgia desse domingo, tomada de Is 66,10-11, vai dizer: “Alegra-te, Jerusalém...”. Como no Advento a alegria do terceiro domingo como que antecipa as alegrias natalinas, aqui podemos dizer que o domingo “Laetare” antecipa as alegrias pascais. A exemplo do Advento, também nesse domingo pode-se usar a cor rósea na Liturgia.

DOMINGO DA PAIXÃO E DE RAMOS

6 - O domingo da Paixão e de ramos dá início à Semana Santa, e sua liturgia é a mesma para todos os anos, exceto o Evangelho, que será segundo o evangelista sinótico. Como o próprio nome indica, a celebração deste dia funde-se em dois aspectos fundamentais, que vão estar unidos e associados em todo o Mistério Pascal, ou seja, a paixão e a glória, a morte e a ressurreição, aspectos estes que, depois, vão transparecer mais ainda na liturgia do Tríduo Pascal da Morte e Ressurreição do Senhor.

7 - Na liturgia deste domingo, vamos ter, no início, a procissão de ramos, que lembra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. No início da procissão, fora, pois, da igreja, proclama-se o evangelho dessa entrada, segundo o evangelista do ano, na sua sensibilidade própria, benzem-se os ramos e realiza-se a procissão festiva até à igreja, onde então se dá continuidade à missa a partir já da oração dia, pois os outros ritos iniciais da missa foram substituídos pela procissão.

8 - Já na igreja, e no momento próprio do Evangelho, é feita a narração da Paixão do Senhor, segundo o evangelista do ano, narração que é feita sem solenidade, isto é, sem a saudação ao povo, sem o sinal-da-cruz sobre o livro, sem o beijo, sem incenso e sem velas. Apenas se diz no fim: “Palavra da salvação”. Quando é feita por diácono, este pode pedir a bênção ao presbítero ou ao bispo. Na ausência de diácono, a Narrativa da Paixão pode ser feita por um leigo, reservando-se as palavras de Jesus ao presidente.

9 - Devemos ter em mente que, embora celebremos no 34º domingo do Tempo Comum a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, como que encerrando o Ano Litúrgico e o coroando, a verdadeira realeza de Cristo é celebrada principalmente no Domingo de Ramos e da Paixão.

AS CINZAS COMO SÍMBOLO LITÚRGICO NA QUARESMA

10 - Na Quarta-Feira de Cinzas, iniciando a Quaresma, as cinzas são para nós símbolo de penitência, de humildade e de reconhecimento de nossa natureza mortal. Mas estas mesmas cinzas estão intimamente ligadas ao Mistério Pascal de Cristo. Portanto, não têm sentido negativo. Não nos esqueçamos de que elas são fruto dos ramos benzidos na celebração do ano anterior, geralmente queimados (sacrificados) na Quaresma, para o rito litúrgico. Na Liturgia da missa, o rito da imposição das cinzas substitui o ato penitencial e, de acordo com o missal, é feito após a homilia. O texto mais objetivo para a imposição das cinzas é “Convertei-vos e crede no Evangelho”, tomado de Mc 1,15, portanto um apelo de conversão.

11 - “A bênção e imposição das cinzas podem ser feitas sem Missa; neste caso, oportunamente, precede uma Liturgia da Palavra, aproveitando o canto de Entrada, a Coleta e as leituras da Missa com seus cantos; depois da homilia, são bentas as cinzas e impostas, e o rito termina com a oração dos fiéis” (Diretório da Liturgia – CNBB).

 

PEQUENAS NOTAS SOBRE A ESPIRITUALIDADE QUARESMAL

 

12 - Como simples introdução à rica espiritualidade quaresmal, podemos dizer, entre outras notas, que:



a) - A Quaresma não é tempo negativo, como muitas vezes pensam os que vivem longe do Evangelho, mas tempo dinâmico, de renovação da vida e de volta aos valores do Evangelho, tendo como meta definitiva o valor perene da páscoa eterna, na comunhão com o Senhor Ressuscitado.

 

b) - O importante, na Quaresma, não é aquilo que fazemos, mas o que deixamos Deus fazer em nós e por nós. É tempo de graça e de salvação (cf. 2Cor 6,2; Is 49,8), tempo, pois, de abrir espaço para Deus em nossa vida e, como consequência, abrir o coração para os nossos irmãos.

 

c) - Tudo na Quaresma, como na Liturgia, tem sentido simbólico. Assim, o jejum e a abstinência de carne, por exemplo, não podem reduzir-se a mera redução ou abstenção de alimento, mas tal atitude deve acenar para uma vida sóbria, diante de tantas comodidades e prazeres que o mundo moderno e consumista nos apresenta. É a afirmação do “SER”, ontológico, diante do “ter”, do “poder” e do “prazer”, como procedeu Cristo no evangelho das tentações (1º domingo da Quaresma).

 

d) - Faz parte da espiritualidade quaresmal, e com grande ênfase, como no passado, a tomada de consciência da fé batismal, a qual se renova na terceira parte da Vigília Pascal do Sábado Santo, como celebração solene.

 

e) - É preciso, pois, viver a Quaresma na espiritualidade evangélica, caminhando com Cristo rumo à Páscoa. Em outras palavras, é preciso fazer de nossa vida uma caminhada com Cristo para Jerusalém, assumindo a cruz de cada dia (cf. Lc 9,23), para ser com ele crucificado e com ele ressuscitar no domingo da Páscoa, voltando ao seio do Pai, ao eterno “hoje” de Deus, ao “dia que não tem ocaso”.

 

13 - Vejamos um detalhe importante: a Quaresma dá início ao ciclo pascal, e o primeiro versículo da palavra de Deus em sua liturgia (Jl 2,12) é de apelo à conversão (“Voltai para mim com todo o vosso coração...”). Podemos dizer que Deus está sempre voltado para nós, agora é a nossa vez de voltarmos para ele e, para tal, é ele que nos “suplica”, em misteriosa humildade, como se de nós dependesse. Entendamos, pois, o que já dissemos no início: a palavra-chave na Quaresma é conversão.

João de Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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João de Araújo - Quaresma, preparação para a Páscoa