A celebração do mistério cristão

UMA PEQUENA INTRODUÇÃO

 

1 - O Catecismo da Igreja Católica (CIC), na parte alusiva à liturgia, nos traz uma rica exposição, tanto de natureza doutrinária, como de pastoral litúrgica. Neste estudo, visando um aprofundamento do tema proposto, vamos nos servir, em parte, do valioso subsídio do Catecismo, tentando uma síntese dos aspectos primordiais da liturgia, naquilo que para nós é mais objetivo e prático, sobretudo para a nossa prática pastoral e celebrativa.

 

2 - Pela liturgia, Cristo manifesta, comunica e torna presente a sua obra de redenção, através da Igreja, até que, novamente, ele venha (1Cor 11,26). Durante este tempo novo, e na dinâmica escatológica, Cristo vive e age na Igreja, santificando-a pela ação de seu Espírito, e fazendo com que também ela seja sinal referencial de salvação para o mundo, em sua índole missionária, sobretudo quando celebra os sacramentos. A Tradição do Oriente e do Ocidente chama a esse agir de Cristo economia sacramental, que consiste na dispensação ou comunicação dos frutos de seu Mistério Pascal, o que se dá, pois, de modo mais pleno e eficaz, na celebração da liturgia.

 

3 - Como se sabe, a liturgia é, antes de tudo, obra da Santíssima Trindade. Portanto, a Trindade é sua essência e seu fundamento. No âmago do mistério trinitário, o Pai é fonte e fim da liturgia; o Filho, plenamente glorificado, está presente nas celebrações litúrgicas (Cf. Mt 18,20; SC 7), e constitui sua centralidade. Já o Espírito Santo é a alma da liturgia, o sopro animador de Deus, que prepara os fiéis, no fervor, para o acolhimento de Cristo, recordando e atualizando o seu Mistério Pascal e, assim, promovendo a verdadeira comunhão no Corpo visível de Cristo.

 

4 - A catequese da liturgia deve firmar-se então, segundo o CIC, primeiramente na compreensão da economia sacramental, o que, certamente, revelará a novidade das celebrações, não reduzindo estas a meros ritos, às vezes estranhos, sem vida e descomprometidos. Aqui, se enfatiza então tudo aquilo que, na diversidade das tradições litúrgicas, é comum à celebração dos sacramentos, o que se dá, podemos dizer, num tríplice aspecto: cristológico, enquanto ação de Cristo e de seu sacerdócio; pneumatológico, visto que é pelo Espírito Santo que a obra de Cristo se realiza plenamente; e eclesiológico, dado que a obra da redenção acontece com a mediação da Igreja, na participação da tríplice dignidade de Cristo: profética, régia e sacerdotal. Neste trabalho vamos deter-nos principalmente no que diz respeito à celebração da Eucaristia, sem nos preocupar, portanto, em detalhes, com os demais sacramentos.

 

5 - Esta catequese fundamental, tão necessária em nossos dias, responderá certamente as questões primordiais que se levantam sempre a respeito da liturgia, tanto, pois, na rica experiência do passado, como na feliz renovação do Concílio Vaticano II, questões estas que, geralmente, são resumidas em quatro: a) Quem celebra? b) Como celebrar? c) Quando celebrar? e d) Onde celebrar?

 

NA REFLEXÃO DO MISTÉRIO, O SENTIDO PRÁTICO

 

6 - Façamos então uma pequena consideração sobre cada uma dessas questões, servindo-nos das orientações do Catecismo e ampliando-as naquilo que já conhecemos, sobretudo levando em consideração reflexões de grandes liturgistas e experiências de nossa própria vivência das celebrações.

 

QUEM CELEBRA?

 

7 - Queremos dizer, inicialmente, que a liturgia é ação de toda a Igreja, "do Cristo total", na expressão técnica do CIC, citando Santo Agostinho e outros grandes santos da Igreja, onde se lê também: "Os que desde agora celebram, para além dos sinais, já estão na liturgia celeste, onde a celebração é toda festa e comunhão". Por aqui já se percebe a dupla dimensão da liturgia: celeste e terrestre. Assim, há os celebrantes da liturgia celeste e os da liturgia sacramental, terrestre. Não duas liturgias, mas uma única, eterna, da qual o Espírito Santo e a Igreja nos fazem participar, quando celebramos, mesmo nas precariedades do mundo, o mistério da salvação.

 

Os celebrantes da liturgia celeste

 

8 - O Apocalipse de São João revela-nos, primeiramente, um trono no céu, e, no trono, Alguém sentado (Ap 4,2), que é o Senhor Deus (Cf. Is 6,1; Ez 1,26-28). Em seguida, mostra-nos o "Cordeiro imolado e de pé", Cristo, (Ap 5,6), o mesmo que oferece (sacerdote) e é oferecido (vítima), que dá (Deus) e é dado (dom). Finalmente, na referência ao mistério da Trindade, o Apocalipse nos mostra o "rio de água da vida", ou seja, o Espírito Santo, que saía do trono de Deus e do Cordeiro (Ap 22,1a). Aqui, pois, a essência trinitária da liturgia e sua sublimação mais profunda.

 

9 - Recapitulados em Cristo, ou seja, mergulhados em seu Mistério Pascal e redimidos pelo sangue redentor do Filho de Deus, participam do serviço de louvor a Deus e de seus desígnios:

 

a) A santa Mãe de Deus (Ap 12,1), como estrela mais luminosa da obra da redenção

 

b) As potências celestes, isto é, os coros angélicos (Ap 5,11-12; Is 6,2-3)

 

c) A criação inteira, representada nos quatro viventes (Ap 4,6b-8)

 

d) Os servidores da antiga e da nova aliança, ou seja, as doze tribos de Israel e os doze apóstolos, aqui representados pelos vinte e quatro anciãos, sentados em tronos e vestidos de branco, tendo coroas de ouro na cabeça (Ap 4,4).

 

e) O novo povo de Deus, simbolicamente representado pelos 144.000 assinalados (Ap 7,4-8), especialmente os mártires, isto é, os imolados por causa da Palavra de Deus (Ap 6,9-11), e também a Igreja, Esposa do Cordeiro (Ap 21,9), na sua realidade também mística. Finalmente, uma multidão incontável de todas as nações, raças, povos e línguas (Ap 7,9-10), caracterizando a universalidade da redenção operada por Cristo, no desejo do Pai.

 

Os celebrantes da liturgia terrestre e sacramental

 

10 - Aqui são compreendidos todos os batizados, como povo reunido e assembléia orante, "raça eleita e sacerdócio real, nação santa e povo escolhido" (Cf. 1Pd 2,9a). A não participação portanto do fiel batizado nas celebrações litúrgicas empobrece essa visão teológica da Igreja, por mais que se queira justificar com a objetividade de outros engajamentos eclesiais.

 

COMO CELEBRAR?

 

Sinais e símbolos

 

11 - "Uma liturgia sacramental é tecida de sinais e símbolos. Segundo a pedagogia divina da salvação, o significado dos sinais e símbolos deita raízes na obra da criação e na cultura humana, adquire precisão nos eventos da antiga aliança e se revela plenamente na pessoa e na obra de Cristo". Aqui, pois, a necessidade imperiosa dos sinais e símbolos nos atos celebrativos e que, às vezes, estão deles ausentes ou então pobremente neles visíveis. É a linguagem mistérica de que tantas vezes deve lançar mão a liturgia, para ser fiel ao seu próprio mistério. Sinais, símbolos, palavras, gestos, canto, música, imagens (ícones), cores, vestes etc., têm poder de comunicação às vezes maior do que aquelas expressões verbais que tanto valorizamos, sem reflexão. Anotemos então:

 

Sinais do mundo e da vida humana

 

12 - Sendo a pessoa humana um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual, exprime e percebe as realidades espirituais através de sinais e símbolos, numa linguagem, pois, de referência, e Deus fala à pessoa através da criação visível, que se lhe apresenta com os vestígios de seu criador. Assim, os elementos da natureza - como a luz e a noite, o vento e o fogo, a água e a terra, as árvores e os frutos - falam de Deus, simbolizando, ao mesmo tempo, a grandeza divina e sua proximidade de nós.

 

13 - Enquanto criaturas, essas realidades sensíveis podem tornar-se o lugar de expressão de Deus, como também da ação humana, que presta serviço ao louvor divino. A exemplo dos elementos da natureza, o mesmo acontece com os sinais e símbolos da vida social, como, por exemplo: lavar e ungir, partir o pão e partilhar o cálice, dar as mãos, sentar-se à mesa, caminhar, cantar, dançar etc.. Em todas as religiões está presente esta comunicação simbólica, e a liturgia da Igreja integra e santifica todos os elementos da criação e da cultura humana, conferindo-lhes, no mistério de Cristo, sentido pleno e dignidade ainda mais crescente.

 

Sinais da aliança divina

 

14 - A aliança de Deus com a humanidade é tecida de símbolos distintivos, que marcam a vida litúrgica. Podemos falar de:

 

a) símbolos cósmicos - Como os do mundo criado: ar, ventos, nuvens, dilúvio, trovões, chuvas, relâmpagos, brilhos estelares etc..

 

b) símbolos históricos - Tais são como os alusivos às intervenções de Deus na história: libertação do povo do Egito, caminhada no deserto, promulgação do Decálogo e outros. c) símbolos rituais - Como exemplos, dentre outros: a unção, a circuncisão, a imposição de mãos etc..

 

A Igreja vê nesses sinais uma prefiguração dos sinais sacramentais do Novo Testamento a ela confiados, e lembra que Cristo assumiu, em sua missão redentora, toda a comunicação simbólica de expressões do povo, da cultura reinante em Israel e, sobretudo, da criação de Deus.

 

Palavras e ações

 

15 - Uma celebração litúrgica caracteriza-se por ser diálogo de salvação, um encontro dos filhos de Deus com o Pai, em Cristo, pelo Espírito Santo. Daí, sua dimensão trinitária. Se as ações simbólicas já são expressivas por si mesmas, aqui a Palavra vem vivificá-las e dar-lhes sentido pleno, que só em Cristo se encontra, pois "é preciso que a semente do reino produza frutos na terra fértil". O diálogo redentor se exprime na iniciativa de Deus e na resposta de fé do povo.

 

16 - Como parte integrante das celebrações, a Liturgia da Palavra, que alimenta a fé, deve trazer seus sinais valorizados, de acordo com a natureza da liturgia. Assim, deve-se dar atenção ao livros da Palavra (Lecionário e Evangeliário), e a tudo o que lhe diz respeito, como incenso, luz, ambão e adornos litúrgicos. A Palavra de Deus não deve ser simplesmente lida, mas proclamada, audível e correta, e a homilia do ministro, sendo um prolongamento da proclamação da palavra, deve ser elaborada, prática e concisa, não um discurso nem aula catequética, mas aplicação simples dos valores do reino à vida humana, numa linguagem sempre de índole familiar. A profissão de fé que se segue é uma profissão objetiva e simbólica, de dimensão eclesial e apostólica, finda a qual se seguem as preces então comunitárias, que, segundo a liturgia, se fazem no exercício do sacerdócio cristão pelos fiéis.

 

Canto e música

 

17 - Como se sabe, o canto, ligado à Palavra, faz parte integrante da liturgia, pois esta é festa, e não existe festa sem canto. O canto não é, porém, mero enfeite ou adorno celebrativo. Na tradição universal da Igreja, é um tesouro de inestimável valor. O canto e a música desempenham sua função de sinais de maneira tanto mais significativa quanto mais se souber que eles devem estar intimamente ligados à ação litúrgica. Santo Agostinho disse: "Quanto chorei ouvindo vossos hinos, vossos cânticos, os acentos suaves que ecoavam em vossa Igreja! Que emoção me causavam! Fluíam em meu ouvido, destilando a verdade em meu coração. Um grande elã de piedade me elevava, e as lágrimas corriam-me pela face, mas me faziam bem".

 

As santas imagens

 

18 - A iconografia cristã transcreve, pela imagem, a mensagem cristã que a Sagrada Escritura transmite pela palavra. Nem sempre, porém, esta verdade é vivida no alcance do que aqui se afirma. É necessário, por isso, que se dê sobretudo aos fiéis mais simples uma catequese mais objetiva acerca das imagens, com extensão ao culto dos santos. Na verdade, imagem e palavra iluminam-se mutuamente. O ícone litúrgico representa a glória de Cristo, que se manifesta nos santos. Não tanto, como se vê, o lado subjetivo do eleito de Deus. Daí, pois, a sua expressão mais cristológica. Nesta concepção, o santo da imagem deveria nos levar muito mais a Cristo do que a ele mesmo. Este é, sobretudo, o lado objetivo do culto aos santos. A contemplação, pois, dos ícones santos deve associar-se à meditação da palavra bíblica e ao canto dos hinos litúrgicos, para que o mistério celebrado se grave na memória do coração e se exprima em seguida na vida nova em Cristo, a que são chamados os fiéis.

 

19 - O argumento mais forte, em consonância com o que foi dito acima, é que a memória dos santos, que a liturgia celebra ao longo do ano litúrgico, no chamado "Santoral" ou "Próprio dos Santos", é, antes, fruto do Mistério Pascal de Cristo, e não uma liturgia como que paralela, acentuando tantas vidas de santidade. A santidade dos santos é a santidade de Cristo, como fruto copioso de seu Mistério Pascal. Em outras palavras, é a santidade divina sendo participada pelos seguidores do Senhor, na vida de bem-aventuranças.

 

QUANDO CELEBRAR?

 

O Ano Litúrgico

 

20 - Desde os primórdios da história da salvação, começando pela lei mosaica, o povo de Deus conheceu festas fixas, em que se celebram as ações de Deus em favor de seu povo. Quando, pois, a Igreja celebra o mistério de Cristo, há uma palavra que marca a sua oração: "hoje", num eco à oração do "Pai Nosso" (Cf. Mt 6,11) e ao apelo constante do Espírito Santo (Cf. Sl 94(95)7b). Este "hoje" do Deus vivo é também a "hora" de Cristo, na páscoa que atravessa toda a história humana e cristã (Cf. Jo 17,1). Portanto, na celebração do Ano Litúrgico, acontece o "hoje" de Deus na história humana, com toda a sua eficácia redentora e salvífica (Cf. Lc 4,21; 23,43), lembrando ainda a geração eterna do Verbo (Cf. Sl 2,7; Hb 1,5).

 

21 - Segundo Santo Hipólito, "...Cristo brilha sobre todos os seres mais do que o sol! É por isso que, para nós que cremos nele, se instaura um dia de luz, longo, eterno, que não se apaga: a páscoa mística"! Como perene fonte de luz, o Ano Litúrgico encontra no Tríduo Pascal a sua culminância e sua irradiação mais profunda, uma vez que aqui se atinge o cume da liturgia, e, por isso, a exemplo do Domingo, o Tríduo Pascal, ou seja, a solene celebração da Páscoa, é também o cerne do Ano Litúrgico, numa identificação bíblica e litúrgica com o "Dia do Senhor" (Cf. Sl 117(118)24; Ap 1,10). Assim colocado, o Ano Litúrgico é, verdadeiramente, "um ano de graça do Senhor" (Cf. Lc 4,19), que ilumina a história humana, antecipa o seu fim, no antegozo das verdades eternas, e faz penetrar em nosso tempo o Reino de Deus. Aqui, pois, se afirma a dimensão escatológica do Ano Litúrgico.

 

22 - Dois mistérios celebramos no Ano Litúrgico: o da Encarnação, no ciclo do Natal, e o da Redenção, no ciclo da Páscoa. A Páscoa é a festa maior, única na sua grandeza, mas já é preparada não só pela Quaresma, como tempo penitencial, mas também pela festa do Natal, onde nos são comunicadas as primícias do Mistério Pascal. Podemos ainda dizer que a Páscoa é a "festa das festas", como a Eucaristia é o "sacramento dos sacramentos". Santo Atanásio chama a Páscoa de "o grande domingo", como a Semana Santa é "a grande semana", principalmente no Oriente.

 

23 - No ano litúrgico, em estudo mais pormenorizado, pode-se ver todos os aspectos do único Mistério da Páscoa, que se renova em cada Domingo, o "Dia do Senhor". O Domingo é, então, como síntese pascal, o núcleo do ano litúrgico, pois é nele que se dá o evento maior da redenção: a ressurreição do Senhor, fundamento da fé cristã, ou seja, cerne vital de todo o Cristianismo. Este dia por excelência é o dia da assembléia litúrgica, "dia que o Senhor fez para nós" (Cf. Sl 117(118),24), em que os fiéis, convocados por Deus, no Espírito Santo, se reunem para dar-lhe graças e comemorar a morte e ressurreição de Cristo. É, pois, na celebração litúrgica da Páscoa, que se renova em todos os domingos, que a Igreja se manifesta ao mundo em sua expressão mais viva e profunda, como verdadeiro sinal referencial de salvação. Aqui podemos dizer então, com acerto, que a liturgia é a epifania da Igreja.

 

24 - Como celebração também, ao longo do Ano Litúrgico, a Igreja faz a memória dos santos, principalmente as da Santíssima Virgem, a qual, por um vínculo indissolúvel, sempre se encontra unida à obra salvífica de seu Filho. Em Maria podemos contemplar e exaltar o mais excelente fruto da redenção, e a Igreja se vê nela plenamente realizada. Nas memórias de Maria, dos mártires e de todos os santos, a Igreja quer celebrar e exaltar a sublimidade do Mistério Pascal de Cristo, alegrando-se por ver, realizado nos santos, o desígnio amoroso de nosso Deus. Glorificados pelo Pai, nos méritos de Cristo e no fervor do Espírito Santo, toda a Trindade encontra neles também a sua glorificação.

 

25 - Ainda com relação ao Ano Litúrgico, deve-se falar aqui da importância da Liturgia das Horas, este tesouro inestimável da espiritualidade orante da Igreja. A Liturgia das Horas, que tem por finalidade santificar todo o curso do dia e da noite, num contínuo louvor de Deus, é a resposta fiel aos apelos bíblicos de oração constante (Cf. Lc 18,1; Ef 6,18; 1Ts 5,17). Rezada nas normas litúrgicas, constitui "a oração pública da Igreja", como exercício também do sacerdócio régio de todos os batizados.

 

26 - A Liturgia das Horas é como que o prolongamento da celebração eucarística e não exclui as diversas celebrações e devoções do povo de Deus, principalmente a adoração ao Santíssimo Sacramento, a celebração da Palavra ou a recitação do rosário, entre outras.

 

ONDE CELEBRAR?

 

27 - No Novo Testamento (Cf. Jo 4,21-24), o culto não está reservado a um lugar exclusivo, como na antiga aliança, que dava valor absoluto ao Templo de Jerusalém. A terra inteira é santa e foi entregue aos filhos de Deus. Mais importante que o "espaço físico" dos templos de pedra é o "espaço humano", onde os fiéis se reunem, quais "pedras vivas", para a construção de um "edifício espiritual" (1Pd 2,4-5). O Corpo de Cristo ressuscitado é o templo espiritual por excelência (Cf. Jo 2,19.21-22), do qual jorra a fonte de água viva (Cf. Jo 7,37-38; Ap 22,1). Incorporados a Cristo, pelo ação batismal e por obra do Espírito Santo, nós é que somos o templo do Deus vivo (Cf. 2Cor 6,16).

 

28 - Não devemos nos esquecer de que a Igreja é, antes de tudo, povo de Deus, assembléia orante, convocada por Deus, e é pela liturgia que ela se manifesta ao mundo em sua mais nobre dimensão. A razão da presença de Deus no templo não é por ser templo, mas por abrigar o verdadeiro templo vivo, que é a comunidade orante e celebrante. Por isso, o templo material, que aqui não é diminuído em sua importância e grandeza, deve ser adequado, funcional e sempre revelar, mesmo em sua construção material, a dignidade de "casa de oração" e lugar de encontro e de comunhão. Diz o Concílio Vaticano II: "A casa de oração onde a Eucaristia é celebrada...deve ser bela e adequada para a oração e as celebrações religiosas". (PO 5d; Cf. SC 124c).

 

29 - Devemos saber que o importante no templo não é o binômio presbitério-nave, mas o trinômio altar-sede-ambão, locais concretos: do banquete eucarístico, da presidência e das leituras; ao mesmo tempo sinais da presença de Cristo: no alimento consagrado, no sacerdote e na Palavra. Não nos esqueçamos, porém, de que a presença do Senhor na Eucaristia é quadriforme: na assembléia, como Ele mesmo assegurou (cf. Mt 18,20), e nos sinais referidos acima.

 

30 - Na nova aliança, o altar é a cruz do Senhor (Cf. Hb 13,10), do qual brotam os sacramentos pascais. Sob sinais sacramentais, no altar se faz presente o Sacrifício da Cruz. O altar é também Mesa do Senhor, para a qual o povo de Deus é convidado, conforme esclarece o Missal Romano e, em liturgias orientais, é símbolo do sepulcro, pois Cristo morreu de verdade e ressuscitou de verdade.

 

31- A Instrução do Missal Romano, ao falar da sede (cátedra = cadeira presidencial), do bispo ou do presbítero, diz que "deve exprimir a função daquele que preside a assembléia e dirige a oração" e, quanto ao ambão, a Instrução diz "que a dignidade da Palavra de Deus exige que exista na igreja um lugar que favoreça o anúncio desta Palavra e para a qual, durante a Liturgia da Palavra, se volta espontaneamente a atenção dos fiéis".

 

32 - Com relação ainda ao espaço celebrativo, o Catecismo diz que "a igreja visível simboliza a casa paterna, para a qual o povo de Deus está a caminho e na qual o Pai enxugará toda lágrima dos seus olhos" (Cf. Ap 21,4). Por esta e por outras importantes razões, a casa de Deus deve ser amplamente aberta e acolhedora.

 

33 - Além, pois, do trinômio altar-sede-ambão, com sua importância litúrgica e fundamental, devemos ainda levar em consideração: a) O sacrário - Este deve estar localizado em um dos lugares mais dignos da igreja, com o máximo de decoro. Sua nobreza, disposição e segurança devem favorecer a adoração do Senhor, realmente presente no Santíssimo Sacramento. Não é conveniente, liturgicamente, que o sacrário fique muito próximo do altar, para não tirar a importância deste e por causa das funções distintas que exercem na liturgia. O altar, liturgicamente, é de natureza sacrifical, e o sacrário, voltado para o culto da Eucaristia. Uma capela lateral sempre foi o lugar ideal para o sacrário. b) Os santos óleos - (Crisma, catecúmenos e enfermos) - Tradicionalmente, são conservados em lugar seguro do templo, com a dignidade, pois, requerida.

 

c) O confessionário - Na prática cristã, a vida batismal exige penitência. Por isso, a Igreja deve favorecer a expressão do arrependimento e do recebimento do perdão. Daí, a necessidade de um lugar apropriado para acolher os penitentes. Houve e ainda há - digamos - um relaxamento quanto a este cuidado pastoral, que precisa ser modificado. Não nos esqueçamos de que o sacramento do perdão nasce no contexto da Páscoa, na oferta do Espírito Santo e, portanto, deve estar impregnado da alegria pascal (Cf. Jo 20,22-23).

 

d) O batistério - A vida litúrgica e sacramental, o congraçamento, a vocação missionária e a comunhão do povo de Deus têm seu início no Batismo. Por isso, na igreja, deve haver um lugar apropriado para a celebração do Batismo, chamado então, na linguagem tradicional, batistério. A pia batismal, aí existente, deve sempre conter água benta, permitindo a lembrança das promessas batismais. 34 - Finalmente, podemos dizer que a igreja deve ser um espaço de paz, que convide ao recolhimento e à oração silenciosa, prolongando e interiorizando a grande oração da Eucaristia.

 

BIBLIOGRAFIA

 

1 - Missal Romano

2 - Catecismo da Igreja Católica

3 - A Celebração na Igreja (Vol. 1, 2 e 3)

4 - Estudos da CNBB - nº 79 5 - Por Uma Consciência Litúrgica (J.A.)

João de Araújo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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João de Araújo - A celebração do mistério cristão