A celebração da Eucaristia - 2ª parte

SEGUNDA PARTE - LITURGIA EUCARÍSTICA (IGMR – n. 72 a 79 e 139 a 151)

 

66 - Sobre a liturgia eucarística, diz a Instrução Geral: “Na última Ceia, Cristo instituiu o sacrifício e a ceia pascal, que tornam continuamente presente na Igreja o sacrifício da cruz, quando o sacerdote, representante do Cristo Senhor, realiza aquilo mesmo que o Senhor fez e entregou aos discípulos para que o fizessem em sua memória” (IGMR - n.72). Por isso, a liturgia eucarística está estruturada litúrgica e teologicamente como o ocorrido no Cenáculo, nos quatro gestos de Cristo, assim:

 

1) Cristo tomou o pão, tomou o cálice (preparação e apresentação dos dons);

 

2) elevou os olhos aos céus, deu graças (Oração Eucarística);

 

3) partiu o pão (rito da fração do pão) e

 

4) e o deu a seus discípulos (rito da comunhão).

 

67 - Se na Liturgia da Palavra predominava, em nossa participação, principalmente o nosso sentido de audição, aqui vai predominar, principalmente, um outro sentido, o da visão. Devemos então olhar, ver e contemplar o que acontece no altar, tendo consciência de que tudo o que ali vai realizar-se é ação de Cristo, da Igreja e de todos nós. É a parte da missa em que predomina o aspecto de ação-gestos-símbolos. Aqui podemos dizer que a palavra se torna ação.

 

68 - Ação sagrada por excelência e verdadeiramente sacrifical, unida em essência à Liturgia da Palavra, a Liturgia Eucarística é o ponto mais alto de toda a liturgia e de manifestação da Igreja. Quando se diz, porém, que esta parte da liturgia da missa está unida em essência à Liturgia da Palavra, pretende-se dizer que toda a missa é celebração eucarística, profunda ação de graças, e não somente a partir deste momento. Esse entendimento não foi claro no passado. De fato, o que se celebra na missa é o memorial da última Ceia do Senhor com os seus discípulos, havendo lá também o diálogo, a lição da palavra, o gesto fraterno e a ação consecratória.

 

69 - Na Quinta-Feira Santa Cristo antecipou seu sacrifício na cruz, que se daria no dia seguinte, e toda vez que celebramos a Eucaristia, atualizamos esse admirável mistério, de maneira sacramental, pois a Eucaristia perpetua no tempo a obra de nossa redenção (cf. SC 2). Não se trata, porém, de dois sacrifícios, mas de um, único, o da cruz. No Calvário, o sacrifício histórico, irrepetível, como acontecimento fundante e, na missa, o mesmo sacrifício, celebrado de maneira sacramental.

 

70 - Podemos ver também no episódio de Emaús (cf. Lc 24,13-35) uma pequena síntese, em figura, da nossa missa, com a parte inicial da caminhada e da palavra, seguida pela mesa, pela bênção e pelo pão partilhado, mas - entendamos - não se trata de ver aí uma celebração eucarística. Aliás, A própria ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa, não deve ser entendida como a “primeira missa”, mas como a sua instituição, o sinal profético do Calvário, o qual, sendo único, tornou, porém, possível a nossa contínua reapresentação ao mistério da Cruz, mediante a repetibilidade de nossas eucaristias.

3. RITOS PREPARATÓRIOS

3.1 - Procissão, preparação e apresentação das oferendas

 

71 - Como sabemos, este momento da liturgia é de preparação da mesa da Páscoa, e de preparação cuidadosa, como se deu historicamente na Quinta-feira Santa (cf. Lc 22,7-13; Mt 26,17-19; Mc 14,12-16), lembrando o que foi dito no número 2 deste trabalho. O nome "ofertório" para este momento é portanto impróprio, por não expressar a verdadeira realidade da liturgia. O verdadeiro ofertório, como veremos mais adiante, só se faz depois da consagração. Aqui, na preparação, podemos distinguir três momentos: a preparação do altar, que é feita pelo diácono, ajudado pelos acólitos; a procissão das oferendas, feita por membros da assembleia; e a apresentação dos dons, feita pelo sacerdote.

 

72 - Em rito processional, os dons são trazidos ao altar e, durante o rito, pode-se cantar um canto, ou então executar um interlúdio musical. O canto aqui não é tão importante como se costuma fazer, às vezes até mais bem elaborado do que outros mais importantes, tanto que, na liturgia, quanto à graduação, é considerado canto suplementar. Ele não precisa falar necessariamente de oferta, de pão e de vinho, mas também não deve ser um canto qualquer, como simples enfeite. É preferível que se cante também somente até as oferendas ser colocadas no altar (IGMR - n. 74), dando "chance" à assembleia - diríamos - de acompanhar os ritos do altar, deles participando mais vivamente.

 

73 - Na procissão das ofertas, são também recebidos o dinheiro ou outros dons entregues pelos fiéis para os pobres ou para a comunidade eclesial. Lembremo-nos de que somente o pão e o vinho são colocados sobre o altar. Os outros dons trazidos, se houver, são colocados aos pés do altar ou então em algum recipiente para isso preparado. Na procissão dos dons, devem atuar membros da assembleia, previamente convidados, conforme a tradição da Igreja (cf. IGMR - n. 73c e 140), e não ministros do altar. Seria bom que os fiéis que levam as ofertas ao altar, lá chegando, fizessem inclinação simples, como parece indicar a Instrução Geral (n. 274e), orientação aplicável, segundo entendemos, não somente ao rito da procissão de entrada.

 

74- A mistura da água ao vinho, na pequena gota que o sacerdote coloca no cálice, é de um simbolismo muito rico. Não deveria, pois, passar despercebido. É a nossa pequenez, simbolizada na gota d'água, colocada no mar imenso da bondade de Deus, com as palavras litúrgicas do presidente: "Pelo mistério desta água e deste vinho possamos participar da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade".

 

75 - Também são riquíssimas as palavras na apresentação dos dons do pão e do vinho: "Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo pão...", e "Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo vinho...", a que a assembléia responde com palavras também de bendição: "Bendito seja Deus para sempre!". Acontece que, na orientação do Missal, essas palavras são ditas pelo sacerdote em voz baixa. Somente na ausência de canto ou de interlúdio musical, podem ser ditas em voz alta, com as respostas da assembléia (cf. IGMR n. 142b).

 

76- Não menos expressivo é ainda o rito do "Lavabo", em que o sacerdote diz, em silêncio: "De coração contrito e humilde, sejamos, Senhor, acolhidos por vós..." (IGRM n. 143) e, depois, lavando as mãos, diz também em silêncio: "Lavai-me, Senhor, de minhas faltas e purificai-me de meus pecados" (IGMR n. 76 e 145). Salvo melhor juízo, diríamos que somente essa última oração deveria ter o sentido privado, como oração pessoal do presidente, rezada então em silêncio. Em seguida, encerrados os ritos da apresentação, o sacerdote convida a assembleia a orar com o "Orai, irmãos...", a que todos respondem: "Receba o Senhor por tuas mãos..."

 

77 - Portanto, quando se canta sistematicamente em todo esse momento, o que, diga-se, não é "proibido", mesmo sem a procissão dos dons (cf. IGMR n. 74), pode haver um desperdício de tanta riqueza que a liturgia oferece. Fica, porém, a liberdade de escolha, da equipe litúrgica e da assembleia.

 

78 - Em celebrações mais festivas, pode-se também incensar neste momento: os dons colocados sobre o altar, depois o altar (pelo sacerdote); em seguida, é incensado o sacerdote, por causa de seu ministério sagrado; e, depois, a assembleia, em razão de sua dignidade batismal. Estas duas últimas incensações são feitas pelo diácono ou por outro ministro (IGMR - 75 e 144).

 

79 - Pastoralmente falando, achamos inconveniente, como acontece em muitas comunidades, o deslocamento dos fiéis para a coleta que se faz nesse momento, dirigindo-se até próximo ao altar, pois o que acontece é que nem cantam o canto proposto nem participam dos ritos do altar, o que é ainda pior. A coleta nos bancos alivia um pouco a situação, mas não é ainda o ideal. Melhor seria se fossem colocados nas portas da igreja recipientes para esse fim, quando então os fiéis já faziam, ao chegarem, a sua oferta. Junto com a procissão dos dons do pão e do vinho seriam levados então para perto do altar, ficando livre o momento para os fiéis participarem dos ritos do altar, dada a sua importância, como se falou acima.

 

80 - Finalmente, alguém poderia objetar - e seria bom que o fizesse - que o que dissemos acima, para um momento de simples preparação para a litúrgica eucarística, foi mais extenso que os comentários de ritos mais importantes, mais ricos e significativos, em outras partes deste trabalho. Responderíamos que é a falta de tais explicações em outros trabalhos que nos moveu à explicitação mais longa.

 

3.2 - Oração sobre as oferendas (IGMR n. 77 e 146)

 

81 - Logo após então a apresentação dos dons, como já se falou acima, encerrados os ritos das oferendas, e após o convite do “Orai, irmãos...”, o sacerdote reza então a oração sobre as oferendas, também aqui oração presidencial e muito significativa. Sua conclusão é mais breve: “Por Cristo, nosso Senhor”. Se no fim se fizer a menção do Filho, a conclusão será: “Que vive e reina para sempre”. Com o "Amém" da assembleia, encerra-se a parte preparatória da Liturgia Eucarística.

 

4 - ORAÇÃO EUCARÍSTICA (IGMR n. 78, 79 e 139 a 151) - A Igreja dá graças e ora ao Pai na voz do sacerdote - Escuta ativa da assembleia e com aclamações

 

82 - Celebrar a Eucaristia é fazer o memorial da morte e ressurreição do Senhor (“Fazei isto em memória de mim”), cumprindo assim a ordem de iteração dada pelo Senhor no Cenáculo. A fé cristã tem na Eucaristia todo o Mistério Pascal de Cristo, acontecimento fundamental de nossa salvação. Nele se encontra, pois, o cerne de nossa profissão de fé, a qual se identifica principalmente como fé trinitária e na ressurreição. Para a importância do Mistério Pascal, a nossa memória deve estar sempre voltada em cada celebração, e é bem provável, talvez, que a tenhamos de educar para tal espiritualidade, que nos é pedida e que de nós é esperada.

 

83 - A Oração Eucarística, chamada também anáfora, unida em essência à Palavra de Deus, é o coração ou centro dinâmico da Eucaristia, e podemos entendê-la como fonte e norma de toda manifestação da Igreja orante. É a mais importante das orações presidenciais (cf. IGMR n. 30) e, como as demais, não deve ser entendida como oração do presidente, e sim da Igreja, que reza pela boca do sacerdote, pois o sacerdote, neste momento, é a língua comum da Igreja, como ensinam Teodoro de Mopsuéstia e São João Crisóstomo em suas mistagogias eucarísticas.

 

84 - Em união espiritual com ele, reza toda a assembléia, em escuta ativa, pois nossos ouvidos materialmente ouvem, mas é nossa boca que teologicamente fala. Há portanto uma diferença na experiência de “escuta” na Liturgia e que seria bom que a assembléia assimilasse: na Liturgia da Palavra, quem fala é Deus (em comunicação descendente), pela boca do leitor, e nós ouvimos, em escuta receptiva. Já na Liturgia Eucarística, quem fala somos nós, a Igreja, pela voz do sacerdote (em comunicação ascendente), e os ouvidos de Deus ouvem. Escutamos, sim, a voz do sacerdote, mas como “nossa própria voz”, que podemos chamar então de escuta ativa.

 

85 - A Oração Eucarística é estruturada, literária e teologicamente, com nove elementos, que se articulam, em dinâmica litúrgica. Tais elementos dinâmicos, colocados depois do diálogo inicial ou invitatório, são: Prefácio, Santo, pós-Sanctus, epiclese sobre os dons (invocação do Espírito Santo), relato da instituição eucarística (Consagração), anamnese-ofertório, epiclese sobre os comungantes, intercessões e doxologia com o Amém final.

 

4.1 - Diálogo inicial (Invitatório) - IGMR n.78 e 148

 

86 - Antes de iniciar a Oração Eucarística, em preparação, o presidente trava um diálogo com a assembleia, desejando-lhe a presença do Senhor e convidando-a a elevar com ele o coração e a dar graças ao nosso Deus. Ela responde, na fé simples, que “Ele (o Senhor) está no meio de nós”, que “O nosso coração está em Deus”, e que dar graças “É nosso dever e nossa salvação”. Assim, nesta feliz disposição espiritual, inicia-se, pois, a Oração Eucarística e, sem essa disposição cristã, difícil seria entender e celebrar devidamente o mistério eucarístico. Segundo a Instrução do Missal, “é muito conveniente que o sacerdote cante as partes da Oração Eucarística, enriquecidas pela música (IGMR n. 147b). Também a assembleia, para um grau de participação maior, a fim de promover e exprimir claramente a ação de toda a comunidade, além da escuta ativa desta oração, participa também, nos devidos momentos, das aclamações propostas, e seria bom que tais aclamações fossem cantadas.

 

Notas:

 

a) - A assembleia deve ficar atenta durante toda a Oração Eucarística, pois é ela, como Igreja, que reza pela boca do sacerdote. Os convites do diálogo inicial querem chamar também a atenção da assembléia para que tome consciência de que a Oração Eucarística é toda dela, embora rezada somente pelo sacerdote.

 

b) - De função presidencial e sacerdotal, a Oração Eucarística deve ser rezada então de maneira audível e consciente (cf. IGMR n. 32), levando a celebração ao cume da ação consecratória, no zelo requerido pela grandeza do mistério. Não deve, pois, o sacerdote rezá-la como um monólogo presidencial, daí a inclusão, na reforma litúrgica, das aclamações da assembleia durante a sua recitação, como que confirmando e ratificando o texto litúrgico, ratificação que se dará de maneira mais ainda definitiva no “Amém” final. Também não deve o sacerdote fazer intervenções durante a Oração Eucarística. Se necessárias ou oportunas, sejam feitas antes do Prefácio (cf. IGMR n.31).

 

4.2 - Prefácio (IGMR 148)

 

87 - O Prefácio não é uma simples introdução à Oração Eucarística propriamente dita, como o nome parece indicar. É, sim, uma proclamação das maravilhas de Deus, ao longo da história salvífica, sendo então verdadeira louvação e de ação de graças a Deus por toda a obra de redenção, aqui com verdadeiro sentido anamnético, expressando também um aspecto do próprio mistério celebrado. Está portanto em sintonia com o mistério do tempo litúrgico ou da festa e se inicia com um forte sentido de unidade, no fervor dos corações, preparado pelo diálogo inicial. O Prefácio termina explodindo-se num canto bíblico, o Santo, como veremos a seguir. Para os tempos litúrgicos e para as grandes festas e solenidades há prefácios próprios, que muito enriquecem as celebrações.

 

4.3 - Santo - (Is 6,3; Ez 3,12; Ap 4,8; Sl 118(117),26; Mt 21,9) (cf. IGMR 79b e 148)

 

88 - O Santo é uma aclamação de todo o povo de Deus, que associa textos bíblicos, como acima citados, num louvor realmente universal. Trata-se do louvor dos serafins, na visão profética de Isaías; da alusão ao “Benedictus” dos querubins, conforme Ezequiel; da liturgia celeste descrita no Apocalipse e do brado de triunfo messiânico, seja do salmista, ainda na expectativa da era messiânica, seja do Evangelista, contemplando já a realidade do Cristo e Senhor, como na entrada triunfal de Jerusalém.

 

89 - Como se vê, trata-se de uma aclamação de profundo sentido teológico, bíblico e litúrgico, o que deveria exigir de todos, principalmente dos responsáveis pela liturgia, mais zelo pela sua execução litúrgica. Seu louvor, iniciado no Prefácio, vai ser continuado no Pós-Sanctus e retomado na doxologia final.

 

90 - Na verdade, pode acontecer que, na prática litúrgica, este momento se apresente "frouxo", quando a assembleia, em vez de o cantar, apenas o recita. Não tem muito sentido - diga-se - convidar os anjos e santos do céu para se unirem a nós neste canto de louvor e, depois, simplesmente afastar-nos do canto, para uma simples verbalização. Quando isso acontece - é lícito pensar - os anjos devem ficar decepcionados, não? Também no canto, muitas vezes, ingenuamente, muda-se o texto, empobrecendo ainda mais este momento de profunda realidade bíblica e teológica, não levando em conta a Instrução Geral, que diz que o Santo é parte da própria Oração Eucarística (cf. IGMR n. 79b), portanto seu texto não pode ser alterado ou mudado.

 

91 - Há três aspectos a considerar no Santo: a transcendência de Deus, sua majestade divina e sua imanência. Como sabemos, a transcendência e a imanência de Deus se harmonizam de modo admirável na revelação bíblica. A transcendência divina se manifesta no tríplice Santo de Isaías, cantado pelos serafins, doxologia já em uso na liturgia do Apocalipse; já a majestade de Deus é exaltada pela criação (“O céu e a terra proclamam a vossa glória...”, melhor ainda: “O céu e a terra estão cheios da vossa glória...”); e a imanência divina se manifesta não só na sua presença viva entre nós - em cada uma de suas criaturas, na história, na natureza - mas sobretudo na Encarnação do Verbo, onde Deus se torna visível na pessoa do Filho (cf. Jo 14,9), com o texto de Mateus fazendo alusão, em tom solene, à sua entrada triunfal em Jerusalém (“Bendito o que vem em nome do Senhor”), onde o Filho de Deus consumará seu sacrifício pela humanidade.

 

4.4 - Pós-Sanctus

 

92 - É a continuação do louvor e da ação de graças do canto anterior, presente de modo vivo nas orações eucarísticas, principalmente na quarta, antes da invocação do Espírito Santo sobre os dons do pão e do vinho. Retoma a confissão de fé do Santo (“Na verdade, ó Pai, vós sois santo...”) e prepara literariamente o momento seguinte, a primeira epiclese.

 

4.5 - 1ª Epiclese (Invocação do Espírito Santo sobre as oferendas do pão e do vinho - IGMR 79c)

 

93 - Neste momento da oração eucarística, o sacerdote, dando graças, isto é, fazendo confissão da santidade do Pai, como foi proclamado no Santo, pede a Ele, em nome da Igreja, a santificação de nossas oferendas, mediante o envio sobre elas do Espírito Santo, a fim de que se tornem o Corpo e o Sangue do Senhor. Esse pedido de santificação está fundamentado na própria verdade da santidade divina, que também a assembléia ratifica, suplicando no mesmo tom do presidente: "Santificai nossa oferenda, ó Senhor!". A palavra epiclese é de origem grega e significa invocação. Esta primeira epiclese ou invocação está ordenada à segunda, quando então se pedirá pela transformação dos comungantes no corpo místico de Cristo, a Igreja. São Cirilo de Jerusalém, em suas mistagogias eucarísticas, vai dizer: “Depois que nos santificamos a nós mesmos com estes hinos espirituais (o Santo), invocamos o Deus, amante dos homens, para que envie seu espírito sobre a oblação, para que faça do pão Corpo de Cristo, e do vinho Sangue de Cristo. Pois, certamente, qualquer coisa que o Espírito Santo tocar será santificado e mudado” (V,7).

 

4.6 - Narração da instituição eucarística - Consagração - (IGMR 79d)

 

94 - O sacerdote recita então a narração da instituição eucarística, culminando com a ação consecratória, isto é, a Consagração, na transubstanciação dos dons. Cesare Giraudo chama a narração eucarística de “lugar teológico escriturístico”, elemento fundante para o pedido da transubstanciação. Agindo, pois, "in persona Christi", ou seja, na pessoa de Cristo, o sacerdote vai pronunciar as mesmas palavras de Cristo, melhor dizendo, Cristo vai pronunciar, ele mesmo, através do sacerdote, as palavras consecratórias:

 

"Tomai todos, e comei: isto é o meu Corpo...", e "Tomai todos, e bebei: este é o cálice do meu Sangue..." Devemos lembrar-nos aqui do que foi dito na Liturgia da Palavra, quanto à sua operosidade sacramental na liturgia. A Consagração está articulada, em dinâmica litúrgica, com o memorial e ofertório, que vem após, cumprindo-se assim o mandato do Senhor, ordem de iteração dada no Cenáculo.

 

95 - Aqui vemos que o mistério eucarístico é verdadeiro mistério, inefável, atingível portanto só pela fé. Jamais a razão poderia alcançá-lo. Palavras, mesmo claras e profundas, e formulações, mesmo as mais brilhantes, não são, pois, suficientes para explicá-lo. Diante do mistério, o silêncio é mais eloqüente. E é bom sabermos também que o sacrifício que aqui se celebra, mediante atualização sacramental, é o mesmo sacrifício da Cruz. Não xerox, mas sacrifício verdadeiro. No Calvário, histórico e, portanto, irrepetível. Aqui, sacramental e, portanto contínuo, teologicamente verdadeiro pela ação litúrgica. Trata-se, pois, de um único e mesmo sacrifício, do qual participamos pela nossa inserção em Cristo, pelo Batismo, e na comunhão feliz da Igreja, Povo de Deus. Nas missas mais solenes, em que há incensação, pode-se usar o incenso nas duas elevações da consagração (IGMR n. 150b e 276e).

 

4.7 - Aclamação memorial (IGMR n. 151)

 

96 - Depois da narração eucarística, o sacerdote proclama “Eis o mistério da fé” (monição que deveria ser feita pelo diácono), e a assembleia vai responder com uma aclamação memorial, servindo-se de uma das três aclamações conhecidas: "Anunciamos, Senhor...", "Todas as vezes que comemos deste pão..." e "Salvador do mundo, salvai-nos..." A terceira aclamação é mais enunciativa que aclamativa, por isso menos expressiva. A primeira e a segunda já são expressivas, com claro sentido anamnético, pois fazem memória da Paixão do Senhor, como foi por ele pedido, ao mesmo tempo que têm elas forte sentido escatológico ao pedirem a vinda do Senhor.

 

Notas:

 

a) - Seria desejável que, após a Consagração, toda a assembleia ficasse de pé para a aclamação após o “Eis o mistério da fé”, como referido acima, mas o que vemos, com raríssimas exceções, é que quase todos os fiéis ainda permanecem ajoelhados, aclamando então de maneira imprópria, ou simplesmente não aclamando.

 

b) - Deve-se ressaltar que nesse momento é impróprio qualquer canto de fundo eucarístico. Se cabível fosse, desviaria o sentido de sacrifício e de celebração para o de culto, mudando então a realidade teológica da celebração eucarística. A aclamação da assembléia é de sentido profundamente pascal, principalmente a primeira acima, pois traz a memória da morte, a proclamação da ressurreição e o desejo da plena realização futura, aqui então com a marca escatológica. Não se trata portanto de aclamação de adoração. O culto à Eucaristia - devemos entender - só se faz fora da celebração eucarística, e a celebração vai ter sempre primazia sobre o culto.

 

4.8 - Anamnese - (Memorial) - Ofertório (IGMR 79e-f)

 

97 - De origem grega, a palavra "anamnese" significa memória, recordação. Aqui, em obediência ao mandato do Senhor, a Igreja faz a memória da morte e ressurreição do Senhor, tornando-a viva, atual e real, no “hoje” de nossa história e no “agora” de nossa celebração. É a presentificação do evento salvífico do Calvário, em sentido pleno e teológico, e não, pois, simples lembrança ou recordação.

 

98 - Memorial e ofertório, na dinâmica da Oração Eucarística, estão liturgicamente unidos, na articulação também com o relato da Consagração. Como se falou nos ritos preparatórios da Liturgia Eucarística, aqui agora é que se faz então o verdadeiro ofertório: de Cristo, da Igreja e de todos os fiéis, não três ofertórios, mas ofertório único. Na memória da morte e ressurreição do Senhor, a Igreja oferece ao Pai "o pão da vida e o cálice da salvação", e agradece a Deus por nos tornar dignos de estar celebrando e servindo ao seu reino de amor. A assembleia, aclamando, vai dizer: "Recebei, ó Senhor, a nossa oferta!". Note-se que na súplica de 4.5, o texto é: "Santificai nossa oferenda, ó Senhor!", oferenda, ou seja, aquilo que vai ser oferecido, indicando, pois, futuridade, com relação ao que agora se concretiza.

 

99 - O desejo da Igreja é que os fiéis ofereçam não apenas a hóstia imaculada, o Cristo Senhor, mas, com o Cristo mediador, também suas próprias vidas, isto é, o dom de si mesmos (cf. Rm 12,1). Também aqui uma catequese litúrgica mais apropriada seria recomendável, e as equipes litúrgicas deveriam crescer nesse entendimento.

 

4.9 - 2ª Epiclese (Invocação do Espírito Santo sobre os comungantes - IGMR n. 79f)

 

100 - Na Oração Eucarística, aqui vamos ter nova invocação do Espírito Santo, nova epiclese, agora suplicando que "participando do Corpo e do Sangue do Senhor sejamos reunidos pelo Espírito Santo num só corpo", ou outro texto equivalente, conforme a oração tomada. Pena é que esse momento da celebração não seja tão percebido, como o da Consagração, por falta, talvez, de uma catequese litúrgica mais adequada. Na verdade, se os dons são transformados no Corpo e no Sangue de Cristo, na chamada transubstanciação das oblatas, é para que nós, recebendo-os em comunhão sacramental, sejamos também transubstanciados no corpo escatológico, eclesial, o Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja.

 

101 - Com relação à participação dos comungantes, Santo Irineu vai dizer: “E assim como o pão, que procede da terra, ao receber a invocação de Deus (na 1ª epiclese) já não é pão comum, mas eucaristia, composta de duas coisas, a terrena e a celestial, assim também nossos corpos quando receberam a Eucaristia, já não são corruptíveis, mas têm a esperança da ressurreição” (Adversus haereses IV,18,4-5). E São Cirilo de Jerusalém também vai ensinar:

 

“Portanto, participamos com absoluta segurança do Corpo e do Sangue de Cristo. Sob a figura do pão te é dado o Corpo, e sob a figura do vinho, o Sangue, para que, pela comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo, te convertas num só corpo e num só Sangue com ele. Desta forma nos tornamos portadores de Cristo (cristóforos), porque seu corpo e seu sangue se difundem em nossos membros (IV,3).

 

102 - Podemos dizer que este é o motivo principal pelo qual Cristo se entregou por nós. O desejo do Senhor é que sejamos de fato a sua Igreja, raça eleita, nação santa, povo sacerdotal e régio (cf. 1Pd 2,9), comprometido com a justiça, povo então solidário e fraterno. Assim, a Eucaristia supõe vida de comunidade e prática do amor verdadeiro, no serviço sobretudo aos irmãos mais pobres, marginalizados e excluídos. Um olhar sereno para a noite da Quinta-Feira Santa, e vendo aí a cena do Lava-pés”, é o suficiente para entendermos o que aqui se afirma.

 

4.10 - Intercessões (Igreja - Memento: vivos e falecidos - IGMR n. 79g)

 

103 - Enfim, a liturgia vai suplicar pela Igreja, a fim de que cresça na fé e na caridade, nomeando o papa, o bispo diocesano, como também orando pelos presbíteros e por todos os fiéis, vivos e falecidos. Nestes últimos, vislumbramos os santos ainda a caminho (Igreja peregrina e militante) e os santos “em acabamento” , na expressão de Johan Konings, S. J. (Igreja padecente ou Purgatório).

 

104 - Quanto aos fiéis falecidos, que se encontram, pois, naquele “cantinho” perto do céu, que chamamos então de Purgatório, necessitando ainda de alguma purificação e à espera da visão plena de Deus, mas que já cantam os louvores da cidade eterna, se no Santo eles nos socorriam com sua voz viva e forte, sustentando o nosso canto ainda de fragilidade, agora nós é que vamos auxiliá-los com nossas súplicas ao Pai de bondade (sufrágio). Aqui está a beleza da comunhão dos santos, essa sublime realidade de nossa fé cristã, que sempre deve encher-nos de renovado consolo e de viva e firme esperança. É muito importante que o nome dos falecidos seja incluído nesse momento, dado o seu sentido eclesial e bíblico.

 

4.11 - Doxologia final (IGMR n. 79h e 151b)

 

105 - Erguendo a hóstia e o cálice e mostrando-os à assembleia, o sacerdote vai proclamar a doxologia final: "Por Cristo, com Cristo, em Cristo...". Esta doxologia, que retoma o louvor inicial do Prefácio, é de natureza presidencial. Por isso não deve a assembleia rezá-la com o sacerdote, como às vezes se vê em tantos lugares. Quando não se tem um entendimento correto da Liturgia, pensa-se que a assembleia fica mais valorizada ao recitar com o sacerdote a doxologia, o que não é verdade. A explicação do que aqui se afirma está no item seguinte.

 

4.12 - O grande "Amém" (IGMR n. 79h e 151b)

 

106 - Estamos agora diante do "Amém" mais importante de toda a celebração da missa. É a ratificação pela assembléia de toda a Oração Eucarística ou anáfora rezada pelo sacerdote em nome da Igreja. É um "Amém", pois, profundamente bíblico e teológico. Não nos esqueçamos de que Cristo é o "Amém" de Deus, isto é, o "Sim" de todo o projeto salvífico do Pai (cf. Ap 3,14).

 

107 - Diante do exposto acima, podemos agora entender melhor: se a assembléia pudesse rezar a doxologia final, como norma litúrgica, este "Amém" perderia sua força expressiva e sua ministerialidade. Tornar-se-ia um "Amém" comum, não "grande" portanto. Do mesmo modo, não se justificaria o canto solene desse "Amém", sempre recomendado, pois ele já teria perdido a sua força simbólica.

 

108 - Podemos dizer ainda que, com o “Amém” final, a assembléia, fazendo sua toda a anáfora rezada pelo sacerdote, coloca-se no mesmo nível de sua importância litúrgica. Daí a necessidade de a Pastoral Litúrgica trabalhar mais este dado da liturgia, não apenas solenizando-o devidamente, mas dando à assembleia as razões litúrgicas e teológicas aqui afirmadas.

 

5 - RITOS DA COMUNHÃO (IGMR, n. 80 a 89)

 

109 - Quanto à comunhão eucarística, convém observar o que diz a Instrução Geral: “Sendo a celebração eucarística a ceia pascal do Senhor, convém que, segundo a ordem do Senhor, o seu Corpo e Sangue sejam recebidos como alimento espiritual pelos fiéis devidamente preparados” (n. 80).

 

5.1 - Introdução pelo presidente (IGMR n. 81)

 

110 - Tendo colocado o cálice e a patena sobre o altar, depois do grande "Amém", o sacerdote faz então o convite para a recitação do "Pai Nosso". São vários os formulários propostos, e dentro do espírito de tais formulários, pode o presidente escolher o que julgar mais próprio, mais atual e mais expressivo.

 

5.2 - Pai Nosso (IGMR n. 81)

 

111 - Diz a Instrução Geral: “Na oração do Senhor pede-se o pão de cada dia, que lembra para os cristãos antes de tudo o pão eucarístico, e pede-se a purificação dos pecados, a fim de que as coisas santas sejam verdadeiramente dadas aos santos”. A oração do Povo de Deus, oração dominical, como deve ser entendido o Pai Nosso, deve ser rezado ou cantado por toda a assembleia. Não se justifica nenhuma paráfrase do texto oficial, bíblico, como também não se justifica o seu canto solene, mas só pelo coral ou por um cantor.

 

112 - Vê-se que, liturgicamente, é com o Pai Nosso que se iniciam os ritos da comunhão. Aqui ele deve ser a expressão viva da fraternidade dos cristãos. É, pois, profissão de fé num Pai que é único e, conseqüentemente, na viva certeza de que todos somos irmãos. Se não se acredita nisso, melhor seria não participar da mesa, pois o "Pão da vida" gera vidas de comunhão e de compromisso libertador e missionário.

 

113 - É expressivo o gesto de dar as mãos neste momento, mas deve-se trabalhar para que o gesto não caia em rotina ou se torne mecânico. É preciso afirmar sempre o seu significado simbólico e, portanto, sua direção para a vida do dia-a-dia, em profundo sentido de fraternidade.

 

5.3 - Embolismo (Livrai-nos, Senhor, de todos os males...") - (cf. IGMR n. 81b)

 

114 - Após a oração dominical, o Pai Nosso, o sacerdote reza ainda, em sua continuação (embolismo), pedindo pela paz, pela libertação do pecado e por todos os perigos. A assembléia, participando, responde com a aclamação do item seguinte.

 

5.4 - Doxologia ("Vosso é o reino, o poder e a glória para sempre!”)

 

115 - É a aclamação que a assembleia faz, em resposta ao embolismo: "Vosso é o reino, o poder e a glória para sempre”, como continuação do Pai Nosso, já observada no início da Igreja (cf. Didaqué VIII,2). Esta doxologia tem também forte conotação escatológica, daí seu valor litúrgico. Os “Estudos da CNBB”, n. 79, no n. 301, coloca esta aclamação como “necessariamente cantada”, junto com outras quatro, mas não vemos na prática tal acontecer. Parece-nos que existe desconhecimento dos compositores com relação a essa recomendação, pois não se vêem melodias para tal texto.

 

5.5 - Rito da paz (IGMR n. 82)

 

116 - Nesse instante da liturgia, o sacerdote suplica ao Senhor pela paz e pela unidade da Igreja, respondendo a assembleia com o "Amém". É o "Amém" omitido no final do Pai Nosso, pois este foi como que continuado no "Embolismo". A oração enfatiza o dom da paz, concedida aos Apóstolos, e a fé da Igreja.

 

5.6 - Abraço da paz (IGMR n. 82bc)

 

117 - Antes da fração do pão, os fiéis são convidados, pelo diácono ou pelo presidente, para a saudação da paz. Este gesto deve ser visto aqui como fruto copioso da oração da fraternidade, o Pai Nosso. O abraço da paz, em nossas liturgias, deve trazer profunda identificação com o "ósculo santo" da Igreja primitiva, símbolo então profundo da fraternidade cristã (cf. Rm 16,16; 1Cor 16,20; 2Cor 13,12; 1Ts 5,26). Veja-se então aqui o seu caráter profundamente bíblico.

 

118 - O canto do abraço da paz é suplementar, isto é, sem tanta importância litúrgica. O importante é o gesto do abraço e não o canto em si. Deve-se, pois, evitar que esse canto se estenda indevidamente, abafando muitas vezes o canto seguinte, que é mais importante na Liturgia. Como se trata de gesto simbólico, devemos cumprimentar somente aquelas pessoas que estão próximas de nós (cf. IGMR n. 82c), evitando o deslocamento na igreja, o que muitas vezes prejudica a harmonia da celebração. A sobriedade é também aqui recomendada, pois exageros não combinam com a simplicidade da liturgia.

 

5.7 - Cordeiro de Deus (Rito da fração do pão - Canto litânico) - (IGMR n. 83)

 

119 - Na última ceia, por ocasião da instituição da Eucaristia, Cristo partiu o pão e o deu a seus discípulos. Este gesto do Senhor é carregado de sentido. Significa que os fiéis, participando pela comunhão no único pão da vida, que é Cristo, morto e ressuscitado, formam um só corpo (cf. IGMR n. 83; 1Cor 10,17).

 

“O sacerdote parte o pão e coloca uma parte da hóstia no cálice, para significar a unidade do Corpo e Sangue do Senhor na obra da salvação, ou seja, do Corpo vivente e glorioso de Cristo Jesus” (cf. IGMR n. 83b). Este rito se chama imisção. O próprio gesto da fração do pão deu inicialmente o nome à missa. Assim, a celebração dos primeiros cristãos chamava-se, inicialmente,"Fração do Pão" e, depois, "Ceia do Senhor". Hoje, o nome "missa", embora signifique "sacrifício", não traduz para o nosso povo a realidade sacrifical do mistério celebrado. A palavra é de origem latina. O nome mais apropriado para a nossa celebração pascal deve ser, pois, Eucaristia, que significa ação de graças.

 

120 - Na liturgia, o gesto da fração do pão, rito que é reservado ao sacerdote e ao diácono cf. IGMR n. 83), vem acompanhado do canto do "Cordeiro de Deus", que é um canto litânico, isto é, em forma de ladainha. Enquanto o sacerdote parte o pão e coloca uma pequena parte no cálice, a assembleia entoa, geralmente por três vezes, o "Agnus Dei" ou "Cordeiro de Deus", suplicando a misericórdia e, na última vez, pedindo a paz. Pode acontecer - e isto acontece realmente, quando não há critério litúrgico - que o canto do abraço da paz acabe "sufocando" este canto e o próprio rito da fração do pão, em prejuízo da liturgia, como já se falou acima.

 

121 - O Missal prevê que as intenções litânicas do Cordeiro de Deus sejam tantas quantas necessárias para a duração do rito da Fração do Pão (cf. IGMR n. 83b), e não somente três, o que pode acontecer em concelebrações com muitos bispos e sacerdotes, mas na prática quase não acontece. A mesma Instrução aponta, aliás, para o não prolongamento desnecessário desse rito. Para a última intenção litânica, prescreve-se sempre o “dai-nos a paz”.

 

122 - Alguns sacerdotes, entendendo e aplicando em sentido literal o “partiu o pão” da narrativa eucarística, já na Consagração partem a hóstia. Mas não é correto fazê-lo. O verdadeiro momento da “fração do pão”, liturgicamente, é como acima indicado e depois do Pai Nosso. Uma observação que esclarece mais: se fosse correto partir a hóstia na Consagração (porque lá diz “partiu o pão”), então seria correto também interromper a Oração Eucarística e dar a Comunhão (porque lá diz também “e o deu a seus discípulos”), o que seria, liturgica e pastoralmente, inadmissível.

 

5.8 - Convite à comunhão: "Felizes os convidados..." (cf. Ap 19,9) IGMR n. 84b

 

123 - Após o rito da fração do pão, o sacerdote, preparando-se para a comunhão, reza em silêncio a oração prescrita. Faz em seguida a genuflexão e, em seguida, proclama: "Felizes os convidados para a Ceia do Senhor", lembrando as palavras do Apocalipse: "Felizes os convidados para o Banquete das núpcias do Cordeiro"). Este é, pois, um convite cheio de sentido teológico, lembrando o banquete escatológico, Banquete eterno, cujo penhor é a Eucaristia.

 

124 - É bom saber que o texto bíblico citado acima é a quarta das sete bem-aventuranças do Apocalipse. Portanto, está no centro de tais bem-aventuranças, e aqui nos remete para o Banquete eterno que a Eucaristia significa, antecipa e realiza profética e sacramentalmente, como se falou antes. Por isso, uma catequese litúrgica mais profunda para este momento seria altamente recomendável. A reflexão litúrgica deveria assim caminhar e avançar mais, também com relação a outros momentos, em que a espiritualidade bíblica se faz mais nítida, como se vê também nos dois ritos seguintes.

 

5.9 - Apresentação: "Eis o Cordeiro de Deus...” (cf. Jo 1,36)

 

125 - Neste rito, elevando um pouco a hóstia e mostrando-a à assembleia, o sacerdote diz: "Eis o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira o pecado do mundo”, que é uma reminiscência bíblica da apresentação de Cristo por São João Batista, no início da vida pública de Jesus. E, após a resposta da assembleia, como se vê adiante, o sacerdote, rezando antes uma oração em silêncio, comunga, para, em seguida, distribuir também a comunhão aos fiéis.

 

126 - Além de ser ministro do Sacrifício memorial da Cruz, o sacerdote é também ministro da Sagrada Comunhão, imitando o Cristo Senhor. Por isso, a distribuição da Comunhão é, antes, específica do sacerdote, ajudado pelo diácono. Pode acontecer que, havendo muitos ministros extraordinários da Comunhão, e por desconhecimento desse princípio, muitos sacerdotes deixem só para os ministros a função de distribuir a comunhão aos fiéis.

 

127 - Seria bom pensar então na força restauradora da Eucaristia, como viático para todos nós, na caminhada para o Pai, como seria desejável entender a Eucaristia como alimento vital de nossa vida cristã.

 

5.10 - Resposta da assembleia: "Senhor, eu não sou digno..." (cf. Mt 8,8; Lc 7,6-7)

 

128 - Ao texto bíblico da apresentação da hóstia como o “Cordeiro de Deus”, a assembleia responde com outro texto bíblico, que nos lembra a fé do centurião, cujo servo Cristo curou. Nota-se aqui, reafirmando o que se disse acima, como é importante a Sagrada Escritura na liturgia. O emprego de textos bíblicos nas celebrações litúrgicas confirma a sua nota bíblica e enriquece a sua espiritualidade, levando, pois, a assembléia a uma familiaridade sempre mais crescente com os dados da revelação.

 

5.11 - Comunhão eucarística - Canto - (IGMR n. 86)

 

129 - Em rito processional, distribui-se então a comunhão aos fiéis, aqui lembrando o maná no deserto, mas maná vivo, não como aquele do Antigo Testamento, que causava surpresa e admiração (cf. Ex 16,15), mas ineficaz para a salvação (cf. Jo 6,49). A caminhada rumo ao altar, para receber o Corpo e o Sangue do Senhor, tem expressiva força simbólica: leva-nos à fonte da vida e aponta-nos a casa do Pai, enquanto fortalece a nossa caminhada terrestre.

 

130 - Deve-se também ressaltar a importância da comunhão sobre as duas espécies. Incentivando essa prática um pouco esquecida em muitas comunidades, vai dizer a Instrução Geral: “A Comunhão realiza mais plenamente o seu aspecto de sinal quando sob as duas espécies. Sob esta forma se manifesta mais claramente o sinal do banquete eucarístico e se exprime de modo mais claro a vontade divina de realizar a nova e eterna Aliança no Sangue do Senhor, assim como a relação entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico no reino do Pai” (IGMR n. 281).

131 - E enfatizando a prática da comunhão de hóstias consagradas na mesma celebração, como também reforçando a comunhão sob as duas espécies, a Instrução Geral vai ainda dizer : “É muito recomendável que os fiéis, como também o próprio sacerdote deve fazer, recebam o Corpo do Senhor em hóstias consagradas na mesma missa e participem do cálice nos casos previstos (cf. IGMR n. 283), para que, também através dos sinais, a comunhão se manifeste mais claramente como participação no sacrifício celebrado atualmente” (IGMR n. 85).

 

132 - O rito da comunhão pede-nos decoro, reverência, atitude de piedade e de encantamento com o mistério. Portanto: atenção, espírito orante e de simplicidade. Os fiéis devem ser orientados sobre a importância do “Amém” que devem responder quando lhes for apresentado o Corpo do Senhor.  O “Amém” aqui, na verdade, significa o “sim” consciente e puro, a expressão viva da fé do comungante na presença real do Senhor na Eucaristia, misteriosa e sacramental, presença, porém, que não torna menos “reais” outras presenças do Senhor na missa. Presença “real” então por antonomásia, como diz Paulo VI (Encíclica “Mysterium Fidei” n. 41). Sabemos que a presença do Senhor é uma só, única, seja à direita do Pai, no Reino eterno, em glorificação definitiva, seja na Igreja e nos sacramentos. Diversas dimensões de uma mesma e única presença, no mistério do amor, diríamos.

 

133 - O canto que se propõe neste momento, e que pode iniciar-se com a comunhão do sacerdote, é um canto vibrante, pascal, de compromisso libertador e missionário. Se for muito numerosa a assembléia, para a comunhão, talvez seja conveniente servir-se de interlúdios musicais após o primeiro canto, em vez da preocupação de sempre cantar, o que muitas vezes acontece e, pior ainda, com repetições do mesmo canto, tornando a celebração, às vezes, enfadonha, cansativa e maçante. Nas missas com impossibilidade de canto, como em missas feriais e de pequeno grupo, após a comunhão do sacerdote, este mesmo ou o leitor pode recitar a antífona da comunhão (cf. IGMR n. 7b).

 

134- Na distribuição da Eucaristia, evite-se que os fiéis recebam por si mesmos a comunhão (cf. IGMR n. 160b), dirigindo-se, por exemplo, ao altar e lá retirando eles mesmos a hóstia, do cibório ou da patena. A Eucaristia deve ser recebida do ministro, pois é dom que se oferece e que os fiéis recebem na gratuidade.

 

135 - Entendamos também que a verdadeira participação litúrgica encontra na comunhão sacramental o seu momento mais pleno e feliz. Diga-se ainda que não se pode entender uma vida cristã que se constrói fora da mesa do Senhor. Pelo menos, de maneira plena, pois somente a Eucaristia pode edificar a Igreja e será sempre fonte de espiritualidade, de comunhão de vidas, de fraternidade, de compromisso libertador e de vida missionária. Acrescente-se também aqui o que se afirmou em 4.10 e no final de 5.9 deste trabalho.

 

136 - Quando falávamos da segunda epiclese, isto é, da segunda invocação do Espírito Santo, esta sobre a assembleia, para que os fiéis, reunidos, se tornassem verdadeiramente o Corpo Místico de Cristo, estávamos chamando a atenção para este momento de comunhão sacramental. Embora muitos, somos um só corpo, e há um só pão, que, partido, nos faz um só em Cristo (cf. 1Cor 10,16-17).

 

5.12 - Momento de louvor - Interiorização (IGMR n. 88 e 164)

 

137 - "Terminada a distribuição da comunhão, se for oportuno, o sacerdote e os fiéis oram por algum tempo, em silêncio. Se desejar, toda a assembleia pode entoar ainda um salmo ou outro canto de louvor ou hino”. Este canto é menos importante que o canto de comunhão e é classificado como canto suplementar. Cuide-se então para que, se houver, não seja ele uma duplicata do que já se cantou.

 

138 - A liturgia não fala, pois, de "Canto final", mas de louvor. Não fala também de "Canto de ação de graças" ou “de momento de ação de graças”, o que seria impróprio, pois "ação de graças" é toda a celebração eucarística, e não um momento dentro dela. "Ação de graças" depois da comunhão seria então "Ação de graças" sobre "Ação de graças".

 

5.13 - Oração após a comunhão (IGMR n. 89 e 165)

 

139 - Na oração depois da comunhão, o sacerdote implora os frutos do mistério celebrado, e o povo, pela aclamação do "Amém", faz também sua a oração do presidente. É a última das orações presidenciais da missa. A exemplo da oração sobre as oferendas, também aqui esta oração tem conclusão breve: se dirigida ao Pai: “Por Cristo, nosso Senhor”. Se dirigida ao Pai, mas com a menção do Filho: “Que vive e reina para sempre”. Se for dirigida ao Filho: “Que viveis e reinais para sempre”.

 

6 - RITOS FINAIS (IGMR n. 90 e 166 a 169)

 

6.1 - Avisos

 

140 - Os avisos da paróquia ou da comunidade podem ser feitos neste momento, antes da bênção final. Seria conveniente que, quando possível, fossem dados por um leigo, e não sempre pelo sacerdote ou presidente.

 

6.2 - Bênção e despedida

 

141 - Com a bênção final e com o "Ide em paz...", a assembleia se dissolve, e todos se voltam para o cotidiano da vida, mais edificados na caridade, mais solícitos no amor e mais dispostos a construir o reino de Deus. "Graças a Deus" é a expressão final, feliz, de todo um povo que se alegra, por celebrar o mistério de Deus e o mistério de sua própria vida.

 

142 - Há no Missal bênçãos solenes para as grandes solenidades da Igreja, como Natal e Páscoa, ou dias e ocasiões especiais (cf. IGMR n. 167b).

 

6.3 - Canto final

 

143 - O canto final não é prescrito na liturgia, como acima foi dito. Por tudo o que se disse antes, não é cabível ficar cantando depois da assembleia dissolvida, o que seria uma incoerência. O "Ide em paz..." é, pois, definitivo. Se houver, porém, o canto, que seja cantado antes da bênção final, ou então que se cante depois, mas como que acompanhando a assembleia, que se retira. Neste caso, sem a participação dela, é claro.

 

144 - A exemplo dos ritos iniciais, também os ritos finais, de acordo com as normas litúrgicas (IGMR n. 170), podem ser realizados de modo específico. Citamos aqui, como exemplo, a liturgia da missa da Ceia do Senhor, na Quinta-Feira Santa, onde os ritos finais são omitidos, para dar lugar à procissão de transladação do Santíssimo para capela lateral, havendo em seguida a desnudação do altar.

 

Veja também a 1ª parte

 

BIBLIOGRAFIA

- Instrução Geral do Missal Romano
- CNBB - Estudos - nº 12
- CNBB - Estudos - nº 79
- CNBB - Doc. nº 43
- A Celebração na Igreja (Vol. 1 e 3)
- Constituição "Sacrosanctum Concilium"
- Redescobrindo a Eucaristia (Cesare Giraudo)
- Num só Corpo (Cesare Giraudo)

 

João de Araújo

 

 

 

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